Como avaliar a aprendizagem durante o ensino remoto?

15/07/2021
15/07/2021 Core

A pesquisa Vozes Docentes — realizada recentemente com 8.786 professores de 87 municípios brasileiros — registrou que 98% dos educadores têm dificuldade em realizar avaliações no ensino remoto. Entre os entrevistados, 27% relataram que o seu município não promove avaliações diagnósticas estruturadas para identificar lacunas de aprendizagem. O tema tornou-se relevante e recorrente nas discussões entre educadores e responsáveis. O mapeamento é uma iniciativa da rede Conectando Saberes.

A necessidade imposta de se manter aulas online tem demandado dos educadores a criação de novas maneiras de avaliação e pode ser uma oportunidade de transformação das formas avaliativas em sala de aula.

Para garantir que o processo avaliativo ocorra de forma integral é importante que sejam avaliados três elementos do processo de aprendizagem:

  • participação (engajamento e colaboração)
  • desenvolvimento (acompanhamento da evolução da aprendizagem: a avaliação formativa)
  • resultado

Mas como avaliar a participação do estudante à distância? Essa tarefa se refere à possibilidade de o educador observar comportamentos e atitudes que os estudantes demonstram durante todo o percurso da aprendizagem. Essa análise é realmente importante, pois transmite ao aluno a noção do quão valorizado é o engajamento dele — revelado por uma atitude aberta à mentalidade de crescimento (em substituição a uma mentalidade mais fixa) e de aprendizado contínuo. Essa assimilação é essencial porque substitui a concepção negativa de que avaliar é somente comprovar o domínio do conteúdo ao final do processo.

Investir nessa forma de pensar é ter um ciclo mais completo do impacto da educação. Um ponto importante é que esse processo seja claramente apresentado ao aluno. Todo processo avaliativo precisa ser transparente, inclusive para fortalecer a autonomia e as escolhas dos alunos.

Para medir o desenvolvimento da aprendizagem, o professor precisa estar atento às devolutivas claras dos alunos que possam gerar as evidências do domínio de assuntos e do desenvolvimento de habilidades. Ou seja, no progresso do estudante. Essa forma possibilita uma análise da evolução da aprendizagem em diferentes momentos e por múltiplas estratégias do docente, direcionando cada ação. Mostra para o estudante o quanto o processo é importante para o resultado.

A ajuda da família é essencial no ensino remoto

A função é gerar para o professor (mediador e tutor do conhecimento) evidências da assimilação da evolução -– o pensamento do estudante fica visível para o educador. Quanto mais o docente registra essas evidências, melhores serão a sua tomada de decisão e sua ação pedagógica. Assim, quando a escola consegue se apropriar e ter o domínio dessas informações, o processo de ensino-aprendizagem se torna mais eficiente. Além disso, prover essa mesma visibilidade para as famílias dará segurança de que o processo de aprendizagem está preservado, mesmo diante de um momento tão desafiador como o que estamos vivendo.

Separamos 7 dicas da especialista educacional Giovana Alfredo, que ajudam professores e gestores escolares a se prepararem para essa nova realidade, promovendo algumas reflexões sobre as tendências educacionais e o papel pedagógico das avaliações escolares.

  1.  Desconstrua a ideia da avaliação como atividade-fim

Para o ensino remoto e híbrido, um dos primeiros passos é considerar que a avaliação não se destina apenas à composição de notas para aprovação dos alunos. Como muitos teóricos já preconizam, a avaliação não é apenas um método, mas, sim, um processo que perpassa todas as esferas sociais. Sendo assim, procure tornar o processo avaliativo uma prática cotidiana da escola e não apenas atividades-fim, ou seja, pontuais. Isso significa que o professor deve estimular os alunos a fazerem pequenas entregas semanais para ter diagnósticos constantes do desenvolvimento de sua turma. Essas atividades vão além das tarefas de casa ou listas de exercícios. É possível estimular os debates, discussões, projetos com entregas periódicas, entre outras atividades, e criar, nos alunos, a familiaridade com esse processo, desenvolvendo, inclusive, disciplina e rotina. Importante: a autoavaliação também é um tipo de avaliação extremamente enriquecedora. Estimule isso nos seus alunos.

  1. Priorize o desenvolvimento de habilidades

O contexto avaliativo, que usa a prova sem consulta como instrumento, gera tensão nos estudantes e, por vezes, afeta a identificação do real nível de aprendizagem da turma, por conta de fatores subjetivos, que vão além desse instrumental. Isso ocorre quando o foco da avaliação está pautado em mensuração de conteúdo. Dessa forma, considere promover avaliações que prezem pelo desenvolvimento de competências e habilidades, desafiando-os a utilizar ferramentas que contribuem para o seu aprendizado, por meio da construção de conhecimentos práticos. Atividades em grupo, produção de podcasts, apresentação de projetos e estações de rotação podem se tornar atividades prazerosas e, de quebra, gerar insumos para que o professor realize a mensuração necessária para a composição de notas.

  1. Considere substituir as provas tradicionais por avaliações com base em projetos e problemas

Muito explorados nas metodologias ativas, os modelos de aprendizagem baseados em projetos e problemas (PBL) permitem que professores e alunos possam movimentar conhecimentos teóricos na busca pela solução de problemas reais e, assim, tornam-se modelos avaliativos que consideram o repertório do aluno e um contexto social, promovendo, não somente a interação entre pares, mas a materialização de um conceito. Um bom exemplo é trabalhar com cases, atividades com base em árvore de escolhas ou construção de protótipos simples que gerem significado ao aluno e permitam mensurar os níveis de aprendizagem a partir da entrega feita.

 

  1. Utilize atividades gamificadas

Diferente do que se pensa, as atividades gamificadas não são apenas a transposição de atividades tradicionais para um ambiente lúdico. Esse modelo avaliativo preza pelo desenvolvimento progressivo de habilidades essenciais e estimula o aluno a buscar o conhecimento necessário para atingi-las sem se sentir pressionado pela aprovação. O desafio proposto nessas atividades permite que os estudantes se coloquem na posição de aprendizes, abertos a movimentar os conhecimentos necessários para vencê-lo e, com isso, se tornam mais protagonistas na busca pelo seu próprio desenvolvimento de aprendizagem. Por isso, além de promover um espaço de engajamento, as avaliações em formato gamificado tornam-se um excelente recurso de diagnóstico real de aprendizagem para o professor.

  1. Busque ferramentas que possam trazer diagnósticos ao professor

Considerando todo o contexto digital, que nos permite ter contato com diversos recursos avaliativos e de interação com os alunos, procure priorizar o uso de ferramentas robustas que tragam diagnósticos mais assertivos ao professor. Hoje, já existem diversas plataformas que ofertam atividades 100% digitais e que geram relatórios de desempenho da turma. Além de otimizar o tempo de correção de atividades, os dados podem ser grandes parceiros nas tomadas de decisão por parte do docente, principalmente agora, que ele está distante do contato físico com a turma em sala de aula.

  1. Considere a avaliação diagnóstica no retorno às aulas

Com todas as mudanças bruscas que escolas do mundo todo vêm passando neste ano, é fundamental considerar a aplicação de avaliação diagnóstica logo no retorno às aulas, como uma ferramenta crucial para identificação de gaps e tomada de decisão. A mudança do ensino presencial para o ensino remoto durante a quarentena pode ter ocasionado lacunas de aprendizagem que precisam ser mapeadas antes da virada do ano letivo, para que possam ser desenvolvidas em tempo hábil, priorizando a aprendizagem consistente dos alunos.

  1.  Promova a aprendizagem colaborativa

Mais do que avaliar, aprender se torna prazeroso quando é uma atividade compartilhada. Quando alunos têm a oportunidade de compartilhar seus conhecimentos, eles se tornam mais protagonistas e confiantes para interagir com seus pares. Além do desenvolvimento cognitivo, a aprendizagem colaborativa promove o desenvolvimento de habilidades socioemocionais fundamentais para a jornada escolar e formação cidadã dos alunos.

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