Superdotado, superinteligente ou só inteligente

13/10/2020 Patricia Malta Saraiva

Como educadores sabemos que determinadas habilidades têm um tempo previsto para acontecer, o que pode variar de acordo com as influências do ambiente, da tarefa a ser realizada e características intrínsecas da pessoa. Por exemplo, esperamos que entre 9 e 18 meses uma criança comece a adquirir seu andar independente. Como bem sabemos, não são todos que se encaixam nestes padrõesesperados e quando observamos que algumas habilidades surgem muito antes do previsto e com eficiência, de forma natural e espontânea podemos considerar uma alta habilidade, também conhecida como superdotação.

Não é possível considerar tal comportamento sem falar em inteligência, neste caso uma superinteligência, pois existem características e definições que precisamos entender e assim, como educadores, saber como observamos, ajudamos seu desenvolvimento e facilitamos seu processo de aprendizagem, bem peculiares. Identificamos na literatura diferentes testes que a quantifica, os famosos testes de QI (quoeficiente de inteligência). Seja por um modelo teórico denominado inteligência geral ou múltiplas inteligências o fato é que há muito a ser levado em conta como a inteligência emocional que ganhou destaque no início dos anos de 1990.

Quando lemos e pesquisamos sobre este assunto encontramos os termos superdotado e superinteligente como sinônimos, mas parto do pressuposto de que toda criança com altas habilidades é superinteligente, mas nem toda criança superinteligente é superdotada e para diferenciá-los descreverei características e situações para tal especulação.

Algumas características que descrevem uma criança com superdotação são: memorização acima do esperado, argumenta fatos e responde a perguntas de forma complexa e coesa, extremamente curiosas e questionadoras, interesse e preferência pelo novo, aprendizagem rápida, mostra interesse por assuntos diversos entre outras. O que chama a atenção é que tudo o que foi mencionado acontece precocemente. Há relatos de crianças com menos de 2 anos saberem o alfabeto completo até de trás para frente, sem estímulos excessivos, pura e simplesmente por interesse próprio. Mais tarde estas “super” crianças demonstrarão habilidades muito acima da média em áreas específicas como a lógico-matemática (Ex: Stephen Hawking), musical (Ex: Mozart), linguística (Ex: Jorge Amado) entre outras inteligências como a espacial, corporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal. Crianças superdotadas não apresentam altas habilidades em todas as inteligências, mas pelo menos uma se destaca.

Digo que as crianças incrivelmente inteligentes não necessariamente são superdotadas porque ao passar dos anos não demonstram destaque em habilidades específicas, porém são excelentes “resolvedoras” de problemas, muito criativas em sua originalidade, incrível argumentação sobre questões que perpassam diferentes áreas, imensa habilidade para aprender e também são muito curiosas, assim como as crianças com altas habilidades. O que as diferencia é terem ou não um gasto de energia maior em um determinado assunto ou área de forma excepcional.

Na escola é preciso que haja um despertar para todas as inteligências e não o foco em poucas, assim teremos mais aspectos para observar neste aluno e entender suas facilidades, dificuldades, competências e preferências. Dar a oportunidade para o aluno descobrir quem ele é e que pode ser o que quiser, desde que se esforce para isto. Quando nos depararmos com um aluno acima das expectativas, altas habilidades observadas precocemente, temos que entendê-lo em suas necessidades e uma delas, talvez a principal no contexto escolar, não o desmotivar, mas desafiá-lo a realizar sempre mais.

Durante minha prática na escola, como professora de Educação Física, já vivenciei situações onde alguns alunos demonstraram ter uma grande curiosidade por um assunto específico. Certa vez me impressionei como um aluno de pré-escola enquanto realizava uma atividade com números (unidades e dezenas). Eu os observava quando uma criança, que estava com duas placas nas mãos representando os números 13 e 16 me perguntou: “Quanto é 13 + 16?” E antes que eu tivesse a chance de responder o outro (que me impressionou) respondeu: “29 Ué!” Eu afirmei que estava certo e logo pedi para que ele contasse como fez para dar a resposta, e em uma riqueza de detalhes foi explicando como elaborou seu pensamento abstrato para resolver esta operação matemática. Me surpreende porque não costumo observar nesta faixa etária (5 – 6 anos) um raciocínio e uma resposta tão rápida quanto presenciei naquele dia.Há de fato outras histórias para contar sobre situações onde a curiosidade, o questionamento, as indagações o pensamento e as atitudes dos pequenos surpreendem dentro e fora do contexto escolar. Estas crianças me levam a crer que possuem uma inteligência acima do esperado e toda disposição para potencializá-la.

Como disse a professora e pesquisadora Leonor Bezerra Guerra, em uma entrevista ao GENE (Grupo de Estudos em Neurociência e Educação) da Universidade Federal de Viçosa: “… numa sala de aula é estranho que só o professor fale. Devia ser justamente o contrário, quem precisa aprender é quem mais devia estar funcionando numa sala de aula. O professor deveria ser só o mediador, um orientador. ”

Para perceber se estamos diante de superdotados ou alunos incrivelmente inteligentes é necessário deixá-los falar, mostrarem suas habilidades e potencialidades.

A entrevista pode ser acessada em: https://www.youtube.com/channel/UCTcUzuqSvjipLun63yL3EyA/videos

Patricia Malta Saraiva

Patricia Saraiva é professora de Educação Física, especialista em Neuropedagogia na Educação e Educação Física Escolar. Atua há 9 anos na Educação Infantil.
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