Por que inteligência emocional pode ajudar-nos durante a crise do coronavírus

16/09/2020
16/09/2020 Marcia Ameriot

A crise do coronavírus colocou nossa vulnerabilidade sobre a mesa, e agora, mais do que nunca, parece necessário buscar maneiras de despertar nossa inteligência emocional. E não digo despertar por capricho meu, mas porque a inteligência emocional não é um dom nem um talento especial que só algumas pessoas têm. Todos os seres humanos têm a capacidade de desenvolver inteligência emocional; o que acontece é que alguns estão mais adormecidos do que outros.

Ter inteligência emocional significa simplesmente ter algum conhecimento sobre o que são as emoções. Portanto, quanto mais conhecimento tivermos sobre as emoções, mais inteligência emocional teremos.

Por que é tão interessante aprender sobre as emoções nestes tempos de crise?

Um exemplo que explica bem isto é o estudo realizado em 2010 pelo psicólogo e pesquisador da Universidade de Buffalo, Mark Seery, sobre o efeito cumulativo em nossas vidas de emoções que não conseguimos administrar. O que este estudo diz é que, embora uma emoção por si só não nos mate, ela pode ter um efeito muito destrutivo se não aprendermos a administrá-la. Porque toda essa energia, se não for canalizada, permanecerá acumulada.
Muitas das estratégias que muitos de nós desenvolvemos ao longo de nossas vidas devido à falta de conhecimento sobre as emoções, tiveram a ver precisamente com esconder e encobrir as emoções que geram desconforto em nós, em vez de aprender a canalizá-las. O que Seery estudou é que cobrir e esconder emoções incômodas não é saudável. Esconder essas emoções pode nos dar uma falsa sensação de sobreviver a uma situação de crise, mas a realidade é que se as emoções não forem gerenciadas e permanecerem acumuladas dentro de nós, elas acabarão nos esmagando silenciosamente.

O que é inteligência emocional

A inteligência emocional foi definida inicialmente pelo psicólogo e jornalista Daniel Goleman. Ele veio para dar estrutura a todo esse mundo emocional que nos condiciona e nos afeta tanto e, no entanto, durante séculos nós tínhamos mantido nas catacumbas… como se as emoções não fossem sofisticadas para o homem civilizado.
Na verdade, a expressão “tal pessoa é muito emocional” ainda tem conotações negativas culturalmente, certo? Mas todos nós somos muito emocionais!
Goleman (1995) definiu a inteligência emocional como “a capacidade de reconhecer, aceitar e canalizar nossas emoções para direcionar nossos comportamentos para os objetivos desejados, alcançá-los e compartilhá-los”.
Portanto, o primeiro passo, para Goleman, seria aprender a reconhecer as emoções e neste sentido para ele a idéia de atenção é fundamental. Se cada vez que uma emoção aparece, tentamos encobri-la em vez de prestarmos atenção a ela, é impossível para nós aprender alguma coisa. Assim, o primeiro passo seria estar atento ao que sentimos e como isso se manifesta em nosso corpo através das sensações.
O corpo é como uma tela onde as emoções são refletidas: se aprendermos a reconhecer as sensações que cada uma das emoções causa em nosso corpo, seremos capazes de diferenciar uma da outra. Porque a raiva, por exemplo, geralmente se manifesta com calor corporal e tensão na área do pescoço, ombros, braços, mandíbula… no entanto, a tristeza se manifesta mais com preguiça, falta de energia, sensação de peso nos braços e pernas.

Por isso, se estivermos atentos a esses sentimentos, podemos distinguir e passar para o próximo nível: nomear a emoção que sentimos e compreender o que ela significa para nós.

O que cada emoção nos diz

A especialista em Inteligência Emocional, Olga Cañizares,  explica que toda emoção básica sempre nos fala de algo, nos traz informações sobre algo que está acontecendo conosco. Vejamos o exemplo das quatro emoções mais básicas:
– A raiva sempre nos diz que alguém ou algo cruzou nossas linhas ou limites vermelhos.
– O medo nos diz que sentimos que nos faltam recursos para enfrentar uma determinada situação.
– A tristeza nos diz que houve uma perda em nossa vida e que devemos nos reconstruir para seguir em frente sem o que perdemos.
– A alegria nos diz que houve uma conquista em nossa vida e, portanto, nos convida a repetir as ações que tomamos para alcançá-la.

Aceitando as emoções

Uma vez reconhecida a emoção que sentimos, este seria o próximo passo no cultivo de uma boa inteligência emocional. Aceitar nossas emoções tem muito a ver com saber quem somos, que tipo de seres nós, humanos, somos.
Se formos capazes de entender que longe do que nossa herança cultural nos ensinou (as emoções devem estar escondidas) somos basicamente seres emocionais, podemos nos dar permissão para sentir toda a gama de emoções que temos programado como uma série.
Aceitar significa dar espaço às emoções em vez de resistir a sentir uma certa emoção – como por exemplo, a raiva – só porque gera sensações desconfortáveis. Se somos capazes de entender que a raiva nos adverte de algo (alguém cruzou nossas linhas vermelhas) e nos enche de energia (é por isso que normalmente nos apetece gritar, até mesmo bater), em vez de nos deixarmos raptar por essa energia e começar a gritar e insultar como loucos, ou em vez de comprimir a energia para deixá-la bem encoberta onde não podemos sequer encontrá-la, podemos aprender a distribuí-la de forma adaptativa.

Mas para fazer isso, precisamos sentir que temos o direito de ficar zangados quando alguém vai além de nossos limites. Daí podemos perceber que a energia e a respiração nos acalmam profundamente (a respiração nos acalma, está cientificamente provado) enquanto dizemos frases que nos ajudam a administrar essa emoção: “Eu sinto que não estou sendo respeitado e é por isso que eu percebo isso, é natural que eu fique com raiva, é normal que eu sinta vontade de gritar, mas não é a coisa mais apropriada neste momento, etc… em resumo…”. Com a prática, encontramos as próprias narrativas que ajudam a canalizar essa energia e, portanto, a administrar as emoções.
É por isso que uma das áreas em que a inteligência emocional de uma pessoa vai se manifestar é em seu nível de autoconhecimento, que é chamado de dimensão intrapessoal. Saber quem somos, o que nos machuca, o que gera ansiedade ou o que nos entusiasma, é como ter um mapa de si mesmo que nos permitirá tomar as decisões certas ao longo da vida, aquelas que geram bem-estar, calma, tranqüilidade, aquelas que nos fazem sentir bem.
A outra área na qual a inteligência emocional de uma pessoa se manifestará é na dimensão interpessoal. Porque tudo o que construímos por dentro acaba se manifestando por fora. Se formos capazes de reconhecer e aceitar nossas próprias emoções, teremos muito mais chances de compreender, respeitar e aceitar as emoções dos outros, de ser mais empáticos e, portanto, ter relacionamentos mais saudáveis e ricos, e de reconhecer e evitar as pessoas e situações que nos prejudicam.
Portanto, administrar as emoções não significa ser um bloco de gelo que não sente nem sofre e que nada o afeta emocionalmente, mas tem a ver com começar a colocar em prática estratégias que nos ajudam a sustentar as emoções à medida que vêm, sem tentar mudá-las, negá-las ou escondê-las em algum lugar escuro.

Infelizmente, uma grande parte do sofrimento humano que foi gerado durante a crise do coronavírus e que se manifestará mais tarde, tem a ver com esta profunda ignorância do que são emoções e de como é necessário aprender a segurá-las e não evitá-las.
Se durante as primeiras semanas de confinamento, em vez de dar espaço ao meu estresse, aceitando que a insônia era apenas um reflexo natural da situação que eu estava vivendo e que precisava de algum tempo para me regular, eu teria ficado obcecado em não sentir essa ansiedade, teria resistido a senti-la, provavelmente teria acabado colocando um remendo na minha insônia, tomando algum comprimido para dormir e deixando toda essa energia acumular-se em algum lugar dentro de mim. E essa energia, como Mark Seery explicou, eventualmente surge na forma de um tique, dor de cabeça, contração muscular, dor de dente ou algum problema digestivo, para citar alguns dos efeitos do estresse.
Portanto, voltando à idéia no início deste artigo, em situações de crise como a que estamos atravessando com o coronavírus, ter um certo nível de consciência sobre o que são emoções e fazer uso de nossa inteligência emocional pode nos servir como um refúgio de bem-estar: compreender o bem-estar não como a ausência de emoções desconfortáveis, mas como a tranqüilidade de saber que temos o direito de nos sentir mal e que dentro de nós temos todos os recursos para administrar as emoções que vêm, sejam elas agradáveis ou desagradáveis.

Marcia Ameriot

Bacharel em Comunicação pela PUC - SP e jornalista.Há mais de 30 anos atua no Terceiro Setor, tendo dirigido grandes fundaçōes. Desenvolveu sua carreira em Comunicação em veículos de comunicação como Folha da Tarde, Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios. Especialista em Gestão de Organizações do Terceiro Setor pela FGV - SP, é Reinventora CORE e Diretora de Comunicação da Associação.
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