Solitude e os Ecos de Guadalupe

Junho 17, 2020
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Junho 17, 2020 Guilherme Romano

O que é Guadalupe para o mundo senão mais uma das suas esquinas periféricas e esquecidas? Longe e marginal aos grandes centros de poder, o pequeno arquipélago caribenho fornece do seu rico passado uma resposta concisa na revisão histórica que varre o mundo.

Eram duros e, na mesma medida, brutais os tentáculos da colonização francesa sobre o pequeno conjunto de ilhas, no início do século 19. Apesar da Revolução Haitiana ter sido um sopro de liberdade, Napoleão com toda a sua força desejava ressuscitar a escravidão na pequena Guadalupe, o local de desterro da nossa Mulâtresse Solitude.

Como muitos dos cativos à época, Solitude não compactou com a volta da escravidão e o fim eminente da sua liberdade. Juntou-se ao líder Louis Delgrès numa revolta épica pela preservação da liberdade. Fazenda por fazenda, batalha a batalha, Solitude mesmo no alto da sua gravidez de oito meses era a mais impetuosa na linha de frente e não arregava os seus s do front.

Toda essa luta findou no dia 28 de maio de 1802, na escaramuça de Matouba, quando numa tentativa desesperada, os rebeldes, em menor número, lançaram mão de um plano suicida atraindo os inimigos para uma armadilha: atearam fogo nos depósitos de pólvora da região. O saldo final foram centenas de baixas em ambos os lados. Solitude, diferentemente, foi uma das poucas que restaram com vida do episódio.

Custodiada como um troféu de vitória do ímpeto colonial,  diferente dos demais sobreviventes, sua vida foi preservada restando à ela a masmorra do cárcere. O motivo para tal  era de ordem simples e racional:  dentro dela havia  ainda um último espólio do conflito, o seu filho.

Tão logo nasceu, o menino foi arrancado dos braços de Solitude como uma mercadoria de simples valia, a fim de satisfazer os meios locais de produção. A mulher, por outro lado, haveria de ser sacrificada na manhã seguinte, pois sua função econômica acabava com nascimento da criança.

No dia seguinte, pela manhã, ainda trazendo as marcas da recente maternidade, as roupas de Solitude estavam embebidas do leite materno que jorrava, pulsante, dos seus seios. Sua cabeça em riste e o olhar fixo, não denunciavam qualquer fragilidade, senão a bravura característica dos campos de batalha. Como armas para a forca,  ainda sob os olhares dos seus inimigos, ainda ousou dizer um  vivre libre ou mourir”, escrevendo assim seu nome na história.

Quase duzentos anos mais tarde, essas palavras voltaram a ecoar da pequena Guadalupe, especificamente da Héros aux Abymes Boulevard para o mundo. Essas ressoam a partir da estátua de Solitude e respondem aos nossos anseios atuais de reparação e justiça. Elas, por outro lado, reforçam também um arquétipo necessário entre todas as outras estátuas nessa revisão histórica atual, o da mulher negra, cativa, mãe e mártir.

Fonte de inspiração: redfish against the stream

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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