Conteudite e Homeschooling: têm cura?

Junho 16, 2020
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Junho 16, 2020 Irene Reis dos Santos

Em tempos de pandemia, tenho lido várias soluções prontas e não duvido da boa vontade que elas trazem, em si mesmas. Há muita gente querendo salvar a pátria – no caso, a educação! É bonito de ver este movimento. É melhor que a apatia, pelo menos. Mas, onde nos levará?

Gosto muito das facilidades que a tecnologia propõe e, logo na primeira semana de isolamento social, trabalho em casa, reorganização de agenda, pudemos perceber quais são as ferramentas tecnológicas mais úteis e quais não servem. As que são mais simples, baratas, intuitivas, terão lugar especial em nossas vidas no pós-pandemia, as demais, serão esquecidas, como qualquer remedinho que a gente compra para resolver uma doença específica e depois deixa lá na gaveta até ele vencer ou a gente esquecer para que mesmo que servira. E por falar em doença…

Por falar em doença, quero entrar, sem pudores, em uma doença que é devastadora para a educação: a conteudite. O sufixo -ite, quando usado para compor uma palavra, neste caso – conteúdo, indica uma doença, uma inflamação de algum órgão ou estrutura. A conteudite, a qual me refiro, é aquela doença que acomete escola, educadores, pais e até estudantes, ansiosos que estão com a perda de conteúdos estipulados por grades que, supostamente, serão cruciais para sua formação futura. A conteudite é grave porque nos tira da responsabilidade de aprender habilidades e competências para que lidemos com o momento presente. Ela nos tira também a flexibilidade dos movimentos, ensurdece-nos, tira-nos o uso da razão e de uma escuta atenta, empática e amorosa. Sem dúvida, esta é uma das doenças mais letais em educação e traz comorbidades e, uma delas, é a cegueira de uma defesa irrestrita e quase fanática do homeschooling.

Todo espaço é educador. Aprende-se o tempo todo em todas as partes e em todos os tipos de relação que temos com o outro. Se eu bem entendi, homeschooling é quando a educação escolar é integralmente substituída pela educação doméstica. É deste homescholling que estou tratando, a despeito de outras definições que também circulam por aí. Desloca-se, portanto, a responsabilidade da educação formal da escola, dos profissionais que se prepararam para isso, e atribui-se aos pais esta função. Não raro, atribui-se às mães, porque muitos pais vão ainda precisar sustentar a família enquanto as mães ficarão em casa, à cargo da educação da criança. Mas, como não vai dar tempo para entrar nas questões de feminismo aqui, muito importantes, sem dúvida, porque jamais podemos deixar de tratar sobre a ressignificação do papel da mulher na sociedade, vou me ater a isso de educar fora da escola e a uma primeira reflexão que quero propor acerca deste tema.

Se a escola só se propusesse a ensinar conteúdo, então, claro, em um momento em que tudo está ali, disponível na rede, ela de pouco serviria e o homescholling seria uma alternativa plausível. Contudo, ouvindo os estudantes e os educadores, nestes meses de quarentena, acho que já deu para entender que ninguém está sentindo falta de acertar coeficientes estequiométricos, calcular mínimo múltiplo comum ou realizar análise sintática, semântica ou morfológica na lousa. As pessoas estão sentindo falta de gente. De papear, de se encontrar, de tomar o lanche, do ruído da entrada e da saída, de entrar em conflito até. Estão sentindo falta de serem importantes em algum tipo de relação para além de suas casas, sentindo falta até de ser assunto! As pessoas estão sentindo falta de gente, insisto!

Em comum, como fios do mesmo complexo tecido, investir na escola ou no homescholling são discursos que estão alertando para a gravidade do conteudismo, das limitações da tal educação tradicional. Há que se ressignificar a escola, incluir a tecnologia nela, de verdade, incluir habilidades para lidar com as questões do mundo real, do contexto, do cotidiano, do sujeito. Há que se incluir, com urgência, habilidades de dar respostas a problemáticas do futuro enquanto se revisa o passado. Dimenstein gostaria de saber que as escolas estão trabalhando, realmente, para construir um cidadão para além do papel.

E não tenho outro remédio que não seja lembrar e compartilhar contigo uma dose de Freire (1996, p. 47), remedinho caseiro, ainda desconhecido de nossas escolas:

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 1996, p. 47).

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