Os Dias de Juno

Junho 10, 2020
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Junho 10, 2020 Guilherme Romano

Junho já entrou quente, senão fervendo no nosso calendário. Alguns dizem que são tempos de purificação e se estiverem certos que assim seja. Outros contradizem essa versão, se segurando nos valores conservadores de um tempo que talvez já não exista entre nós.

Ainda em maio, George Floyd foi assassinado colocando a América nesse fogo cruzado entre o presente e o passado. Dias depois, o caso do menino Miguel eclodiu no Brasil, trazendo ainda mais combustível para essa questão em nível nacional.

Lá, cidades e ruas foram e ainda estão sendo tomadas pela população, indiferente da cor, em nome da justiça e da equiparação racial mesmo à revelia dos toques de recolher. A guarda nacional entrou em cena e até o poderoso exército ingressou na discussão. A tensão invadiu Washington DC e Trump teve que se refugiar num bunker da Casa Branca dias atrás.

Cá, a morte do garoto Miguel ganhou o imediatismo do noticiário logo no horário do almoço do último dia 2 e, a partir daí, uma onda tomou conta das redes sociais também em tom de justiça e equiparação. E nós, atualmente, nos encontramos ainda nesse ponto de inflexão, entre as manchetes e os posts.

João Pedro, Ágatha, Evaldo, Luciano e Amarildo percorreram também esse mesmo rito: comoção, noticiário e as rede sociais, porém diferentemente de Miguel, esses carregavam ainda um outro agravante:  foi o Estado quem os matou. Mesmo assim, no fim das contas, todos, sem exceção, ficaram nesse mesmo ponto de inflexão até chegarem ao esquecimento diante da próxima tragédia.

Nenhum deles, seja Miguel, João Pedro, Ágatha, Luciano, Evaldo e até Marielle foi capaz de nos mobilizar a ganhar as ruas como os americanos o fazem na exigência da igualdade racial ou da justiça. Nós, diferentemente, preferimos seguir no pontual de um ou dois atos talvez, ou ainda, no conforto dos celulares, dos tablets e afins, ressoando hashtags de momento num cômodo exercício de cidadania virtual.

Com relação ao que nos move no presente e nos motivou no passado a ganharmos as ruas, a pauta sempre foi única, a política, independente das ideologias. Exemplos não nos faltam, as Diretas Já, as Caras Pintadas, as Jornadas de 2013 e atualmente o esvaziado antagonismo político. Só respondemos civilmente a isso, ponto final e é aí  nos escapam os importantes “detalhes civilizatórios”.

Isso reforça, em muito, a nossa necessidade de termos vozes e discursos dissonantes do establishment, porém esses sensíveis às causas específicas como a do racismo, a da brutalidade estatal, a do meio ambiente, entre outras. Vivemos numa vacância desértica de lideranças desde quase sempre e só elas são e serão capazes de transformar as causas em discursos e dali em atitudes concretas de mudança.

No caso específico dos EUA, se analisarmos a questão do racismo, as lideranças que abraçaram essa pauta no passado, Martin Luther King e Malcom X, para ficarmos apenas em dois exemplos, personificaram ao longo das suas jornadas um só ideário, o da igualdade racial. E, é essa mensagem objetiva que prevalece até os dias de hoje no cerne da comunidade afro-americana como um todo. Ela é tão vistosa e poderosa que se alastrou desde então por todos os segmentos do tecido social norte-americano como a cultura, o trabalho, a justiça, a política, a educação, entre outros. Os seus muitos resultados práticos vão desde o cinema visceral de Spike Lee aos oito anos da presidência de Barack Obama.

Ou seja, para finalizarmos por aqui, é para ontem e, ainda cabe nesse junho também, a real necessidade da presença de um King ou de um Malcom X  entre nós que vá além das vaidades e do vazio existencial das hashtags.

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Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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