A infância e os efeitos da agenda lotada

Junho 3, 2020
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Junho 3, 2020 Katia Chedid

Mesmo na quarentena as agendas das crianças estão lotadas! Família e escola se empenham em oferecer o maior número de oportunidades para o desenvolvimento dos potenciais atendendo as expectativas dos adultos. Pensando na agenda e no tempo é interessante  lembrar em como o tempo era representado pelos gregos. Eles tinham duas palavras para descrever o tempo, que era explicado na figura dos deuses Kronos e Kairós.

Kronos, era um velho cruel e tirano que controlava o tempo desde o nascimento até a morte. Ele era um ditador da quantidade de coisas que deviam ser feitas durante o dia e cuidava daquele tempo que nunca é suficiente, que preocupa, escraviza e estressa. Kairós, ao contrário, era um jovem ágil que corria rapidamente: era impossível segurá-lo ou trazê-lo de volta, ele simbolizava a oportunidade e não havia uma segunda chance de viver esse tempo!

A infância deveria estar repleta de Kairós para ser produtiva! Deveria transbordar de momentos que fluem e marcam o resto da vida, de tempo vivido que corre, que não volta, de tempo para brincar, usar a criatividade sem barreiras, usar a imaginação, de pintar e cantar. A infância deveria conter brincadeiras de faz de conta, cantigas de rodas, joelhos ralados, roupa suja, além de muitas ocasiões envoltas em fantasias!

Hoje, percebemos tanto nas famílias como nas escolas a necessidade de lotar de atividades o tempo da criança, enchendo sua vida de Kronos, de horários, de agendamentos. Como disse uma vez um educador que conheço “nossos alunos e filhos estão há menos tempo nesse planeta” e por isso, nós, os adultos, devemos mostrar como fazer, como aproveitar e como viver o tempo que temos por aqui.

 

Sabemos que pessoas criativas fazem mais associações entre as informações. Todos concordamos que a criatividade é essencial para produzir ideias originais, inesperadas e gerar adaptações úteis na resolução de problemas. A ciência diz que, não só os seres humanos brincam, mas os animais de todas espécies fazem isso. Brincar seria um “treino” para a vida, imaginar algumas situações e vivê-las de modo fantasioso nos ajudaria a enfrentá-las e resolver situações problemas.

Segundo a UNESCO, “quando uma criança experimenta diferentes maneiras de utilização dos objetos, como, por exemplo, um cabo de vassoura tornando-se um cavalo, ela evolui da imitação até o uso criativo de objetos à medida que busca expressar suas ideias de como vê o mundo a que pertence.

Brincar, para os neurocientistas, é parte do desenvolvimento humano, há quem afirme que “por meio do brincar – e em estreita interação com o ambiente e seus semelhantes – a rede neural se amplia, novos caminhos neurais se formam e distintas áreas do cérebro se tornam interconectadas”. A visão da Neurociência sabe que o brincar tem papel essencial em vários processos cerebrais: ao proporcionar muitas e variadas experiências, provocaria a formação e consolidação de importantes circuitos neurais, tornando interligadas áreas do cérebro relacionadas a distintas competências ou conjuntos de habilidades.

Pesquisadores, como Fagan, acreditam que o brincar tenha valor adaptativo para os animais “uma vez que a atividade envolve riscos para a sobrevivência e desperdício energético para indivíduos em crescimento”, o que acontece também com os seres humanos. Muitos já escreveram sobre o brincar, entre eles, Piaget que afirmava que “brincar é o trabalho da infância” e também que o “brincar livre e o brincar dirigido são essenciais para o desenvolvimento de habilidades acadêmicas”.

Hirsh-Pasek e Golinkoff  realizaram uma pesquisa para saber qual dos dois tipos de brincadeira, a dirigida ou a livre, promovia mais aprendizagem e entre muitas reflexões fizeram algumas constatações importantes, baseadas em vários autores: “o brincar livre e o brincar dirigido são igualmente importantes para promover competência social e confiança, assim como autorregulação ou capacidade da criança para controlar seu próprio comportamento e suas emoções”. Em seu artigo, escreveram que no “brincar livre a criança aprende a negociar com os colegas, a esperar sua vez e a gerenciar-se e gerenciar os demais”. Ao final da pesquisa chegaram à seguinte conclusão: “o brincar livre e o brincar dirigido oferecem um forte apoio para a aprendizagem acadêmica e social. De fato, comparações entre crianças em idade pré-escolar que utilizam abordagens lúdicas, centradas na criança e crianças que participam de abordagens menos lúdicas, mais orientadas para o professor revelam que as crianças do primeiro grupo apresentaram melhores resultados em testes de leitura, linguagem, escrita e matemática. Ambientes mais envolventes e interessantes para crianças favorecem o aprendizado no ensino fundamental”. Além disso, surpreenderam-se com o fato das escolas terem diminuído seu tempo de brincar livre, de recreio ou intervalo, e também com a diminuição em mais de 50% do tempo que as crianças tinham para atividades ao ar livre em 1997 em comparação com o que têm agora.

Em pesquisa  publicada no The jornal of American Medical Association pesquisadores concluem que, no período de aquisição de linguagem, “brincadeiras com brinquedos eletrônicos estão associadas à diminuição da quantidade e qualidade da linguagem adquirida em comparação com o brincar com livros ou brinquedos tradicionais. Para promover o desenvolvimento precoce da linguagem, brincar com brinquedos eletrônicos deve ser desencorajado. Os brinquedos tradicionais pode ser uma alternativa valiosa para tempo que a criança tem para brincar, assim como a leitura de um livro realizada por um adulto.
A Academia Americana de Pediatria tem reiterado a recomendação de que as crianças não deveriam ser expostas a nenhuma mídia eletrônica antes dos dois anos de idade e utilizam o seguinte argumento: “o cérebro da criança se desenvolve rapidamente nesses primeiros anos e crianças pequenas aprendem mais interagindo com pessoas do que com telas”. Por isso, mesmo servindo de
tranquilizante para as crianças videos e jogos não deveriam ser utilizados antes dos dois anos, principalmente durante as refeições e nem como alternativa preferencial quando outro ser humano possa interagir com os pequenos. Ensiná-los a se acalmar e comer com atenção focada dá trabalho e estamos optando pela distração e não pelo aprendizado.

A mesma Academia Americana de Pediatria afirma que crianças entre 8 e 10 anos têm passado, em média, oito horas diárias em contato com mídias eletrônicas, causando efeitos negativos no comportamento, na saúde e no desempenho escolar. A recomendação é que crianças e adolescentes não passem mais que duas horas diárias em contato com essas mídias.


Pellegrini
 identificou que “crianças do ensino fundamental que brincam livremente durante o recreio retornam às aulas com a atenção renovada em relação ao seu trabalho. Estas crianças, apresentam melhor desempenho em leitura e matemática do que crianças que não participaram do recreio”. Esse pesquisador escreveu também em seu artigo que as habilidades conhecidas como funções executivas (atenção, resolução de problemas e inibição), desenvolvidas sob as condições do brincar dirigido, foram relacionadas ao melhor desempenho em matemática e leitura. Brincadeiras físicas foram também associadas com áreas de desenvolvimento do cérebro – lobos frontais – responsáveis pelo controle comportamental e cognitivo”.

Mau humor, irritabilidade, choro, dor de cabeça, de estômago e nas pernas, alergias podem ser sintomas de estresse na infância. Quando a criança fica exposta por muito tempo à liberação de cortisol, que é o hormônio envolvido diretamente na resposta ao estresse, pode apresentar diminuição na capacidade de aprendizagem. A falta de tempo livre, de brincar sem ser dirigido pode estressar as crianças. O uso excessivo de eletrônicos também pode desencadear estresse e depressão.

Hoje, nem mesmo as festas infantis proporcionam tempo para o brincar livre: monitores, mágicos e outras atrações mantém a criança “ocupada”. Os pais fazem o mesmo com a semana da criança e enchem sua agenda de atividades. Em que momento as crianças farão um graveto virar um avião ou um trem? Quando exercitarão sua imaginação e criatividade? Quando aprenderão?

Muitos pais ficam preocupados em capacitar seus filhos para as demandas de um mercado de trabalho de um futuro que desconhecem. Habilidades como a criatividade, inteligência emocional e a resolução de problemas, com certeza, sempre serão um diferencial em qualquer profissional. Nada desenvolve mais essas habilidades na criança do que o lúdico. O brincar sozinho, o brincar com pares, o brincar livre e, às vezes, de forma dirigida serão de grande valia para o futuro e também para o presente de nossos alunos e filhos.

Para a aprendizagem precisamos de desafios e exigência, mas não precisamos de estresse, de sobrecarga. Sabemos que as respostas ao estresse podem variar da agressividade à fuga.

Uma escola na Inglaterra  virou um verdadeiro laboratório de aprendizagem e decidiu “testar o mesmo conteúdo em turmas diferentes com métodos completamente distintos. Em uma delas, a matéria do dia seria formatada em seções de 8 minutos. Depois disso, uma pausa de 10 minutos, com brincadeiras que não tinham nada a ver com a disciplina. Mais 8 minutos do mesmo conteúdo. Pausa de 10 minutos, outra revisão. A retenção do conteúdo foi muito maior nessas turmas do que nas que utilizaram o método comum”. Sabemos que o cérebro não fixa a atenção por longos períodos e quem sabe a resposta não seja pequenos períodos intercalados com brincadeiras?

Renata Proetti da IPA – Associação Internacional pelo Brincar (www.ipabrasil.org)  que tem como principal objetivo a defesa ao Direito ao Brincar e à Cultura como preconiza o artigo 31 da Convenção Sobre os Direitos da Criança afirma que “a exposição infantil às telas (tv, games, computadores, tablets e celulares) está ultrapassando o tolerável e aceitável do ponto de vista da saúde. Os pais trabalham fora, mais e mais horas por dia fazendo com que as crianças estejam sujeitas às telas, como um recurso para o uso do seu tempo livre que, em tese, deveria ser usado para outras atividades. As grandes cidades, além de muito urbanizadas e com extrema escassez de áreas livres e parques, hoje são vistas como uma zona de risco às crianças devido à violência. Juntos, estes fatores acabam levando as crianças ao sedentarismo, ao abuso da tecnologia. Este abuso faz com que a criança não brinque. Quando ela não brinca, ela deixa, entre outras coisas, de se socializar. A socialização cria mecanismos importantíssimos no desenvolvimento da aprendizagem, como ter empatia. A não- socialização pode desencadear mecanismos ligados à violência e à depressão. O índice de crianças deprimidas e fazendo uso de medicações no Brasil nunca foi tão alto. Um dos resultados imediatos da falta do brincar é a depressão infantil, os efeitos disso nesse indivíduo adulto, ainda não sabemos quais serão

Em um momento em que adultos pensam em desacelerar porque não ensinar as crianças a fazer o mesmo?  Por que gerar ansiedade desde tão cedo?

Não estamos deixando que nossas crianças sintam que a infância é confortável. Achávamos as tardes muito longas quando na nossa infância e com a vida adulta e a agenda lotada elas começam a passar mais rápido. A maioria das crianças de hoje reclamam que o tempo passa rápido e que eles não têm tempo! Como adultos, estamos retirando o tempo de nossos filhos e alunos, essa responsabilidade é nossa e temos que repensar muito o que proporcionar a essas gerações mais novas. Que qualidade de vida estamos oferecendo a essas gerações de crianças irritadas, agressivas, agitadas, desanimadas, ansiosas? Para quê? Por que?

Em 2012, a Academia Americana de Pediatria lançou um documento que chamava a atenção para os impactos negativos do estresse tóxico, que trazia prejuízos para a aprendizagem, comportamento, desenvolvimento físico e mental. O relatório sugeria que parte dos problemas mentais que ocorriam nos adultos deveriam ser vistos como transtornos de desenvolvimento com início na infância. Desde 2012 o que foi feito para deter a evolução desses transtornos?  Nas escolas encontramos muitas crianças com diagnóstico de depressão, pânico e outros problemas relacionados ao encurtamento da infância.

A brincadeira é antes de tudo um direito das crianças e todas as crianças do mundo brincam, mas nossas expectativas quanto ao futuro e ao desempenho delas estão roubando o que elas têm de mais bonito: a espontaneidade, a fantasia e a imaginação.

Segundo Marques e Ebersol “uma criança que não consegue brincar deve ser objeto de preocupação. Disponibilizar espaço e tempo para brincadeiras, portanto, significa contribuir para um desenvolvimento saudável. É importante também que os adultos resgatem sua capacidade de brincar, tornando-se, assim, mais disponíveis para as crianças enquanto parceiros e incentivadores de brincadeiras”.

A autora do livro “Einstein teve tempo para brincar” afirma que “brincando mais livremente, as crianças terão mais chance de desenvolver a inteligência emocional”. Afirma ainda que a inteligência emocional vem com a maturidade, não em brinquedos passivos, e muito menos na pressa das atividades diárias. Os pais devem buscá-la na forma como interagem com seus filhos, no respeito construído pelo que eles dizem e fazem.

Para Elvira Souza Lima, que está implantando em muitas cidades brasileiras o currículo que chama de Viver a Infância, “o tempo para vivenciar essa fase da vida é essencial para a criança. Já sabíamos disto pela antropologia que revela que brincar faz parte da história da evolução da espécie humana, hoje, com a neurociência temos a comprovação de que brincar desenvolve áreas importantes do cérebro, que serão base para aprendizagens futuras. Pelo brincar, a criança se insere na cultura, desenvolve os sistemas expressivos, a empatia e a comunicação humana. O impacto da atividade de brincar no desenvolvimento infantil é maior e mais significativo do que, às vezes, seguir um “currículo” de cursos e atividades para ocupar o tempo da criança”.

A neurocientista Carla Tieppo afirma que “vivemos uma crescente fixação em agendas lotadas e aproveitamento máximo do tempo. E levamos isso tão a sério que parece natural exportar esta necessidade para a agenda dos nossos filhos. É comum as crianças de colo terem agendas tão lotadas quanto a de seus pais. Mas o benefício esperado com essa correria entre um compromisso e outro em meio ao trânsito e estresse das cidades grandes pode ficar bem distante daquele esperado. É verdade que os estímulos que a criança recebe são fundamentais para o desenvolvimento destes cérebros em plena potência de aprendizagem. Mas, não é a quantidade de estímulos que faz a diferença.
O valor motivacional e afetivo desses estímulos é muito mais importante. Se as atividades apresentadas geram cansaço extremo e não fazem os olhos dos pequenos brilharem, não terão valor. É claro que é preciso estimular um pouco para fazer as aulas de natação serem suficientemente interessantes para serem substituto à altura para o videogame. Mas, se não soubermos dosar adequadamente o nível de estímulo que apresentamos e a carga de responsabilidades depositadas, teremos que enfrentar crianças estressadas, ansiosas e, até mesmo, com sinais de depressão. O principal valor ligado ao desenvolvimento infantil de qualidade é o desejo de aprender. A sobrecarga de atividades subtrai o prazer que deveríamos sentir cada vez que um novo circuito cerebral é formado em nosso cérebro. Para sentir essa euforia é preciso ter reservas de
energia e de motivação e uma boa dose de fantasia e liberdade criativa. Temos que caminhar para ambientes de aprendizagem menos formais e mais estimulantes”.

Pesquisadores e educadores concordam com os benefícios do brincar e principalmente, do brincar livre que estimula a troca entre os pares e o desenvolvimento de habilidades importantíssimas para a vida.  Ao iniciar o ano vamos procurar deixar espaços livres na agenda de nossas crianças para o brincar! Os gregos sabiam das coisas, sabiam que aquela ideia criativa, aquele insight pode fugir rapidinho se não deixarmos tempo para Kairós! Sabiam que um momento prazeroso pode ser fugaz e duradouro! Nada como o “dolce far niente!”

Nota: Vale conhecer o livro do projeto   Território do Brincar feito em parceria com o Instituto Alana e  com escolas que desejaram olhar para aspectos essenciais do brincar infantil e a partir daí descobrir as contribuições do brincar.Esse projeto é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infantil.

Sugiro as fotografias dos livros:

Playground –  que mostra os recreios ao redor do mundo 

e Território do Brincar – Diálogos com Escolas, já citado acima.

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Katia Chedid

Educadora, graduada em pedagogia, especialista em neuropsicopedagogia e gestão escolar. Curadora de conteúdo no Facebook: “Neurociência e Educação” e “Neuroscience and Education”, com mais de 60.000 membros. Especializada em Neuropsicologia. Educadora com mais de 30 anos de experiência em escolas, pedagoga, psicopedagoga e gestora escolar. Especializada em Neuropsicologia, já participou de grupos de estudo em Neurociência na Faculdade de Educação da PUC-SP, na Escola Politécnica e na Faculdade de Educação da USP. Ministra cursos e palestras.
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