O General de Pijamas

Maio 20, 2020
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Maio 20, 2020 Guilherme Romano

A aposentadoria não poderia ser melhor. Da janela, a vista não desmentia, era a orla de Ipanema. A rotina da semana dividia-se entre a peteca, os amigos, a natação e as conversas ao pé do ouvido no Clube Militar. Usava sempre um Ray-Ban® de grau e tinha a vida que todos queriam naquele pedaço do Rio arcaico.

Aos fins de semana, religiosamente, subia a Serra para reencontrar a sua grande paixão: cavalaria,  que o acompanhava desde os tempos de menino. Mcnamara, o seu puro sangue inglês, era a sua companhia naquelas cavalgadas introspectivas.

Respeitado, no trato do dia a dia o chamavam ainda de General, apesar da distância da ativa. A patente soava como uma massagem para aquele ego ferido que nem o tempo foi capaz de curar.

Certas manhãs, as conversas do Clube Militar saíam um pouco da normalidade e a política ganhava corpo, entre as estrelas presentes. Existiam os mais exaltados, os moderados e o velho General, que apenas os observava e pouco opinava, apesar da insistência dos colegas. Sempre fora um homem de poucas palavras, porém de grande estratégia.

Ao fim de um outubro de dois turnos, seu cavalo, que só trotava há anos, saiu em disparada. O animal apenas obedecia aos ímpetos raivosos de um chicote que comia o seu dorso. Mcnamara era, naquela tarde, apenas o reflexo da velocidade na qual maquinava o cérebro do velho General.    

Aquelas discussões no Clube Militar ganharam desde então novos contornos. Nomes, a cotação dólar, as teses econômicas e o vai e vem das bolsas, eram as pautas frequentes daquele círculo.

Somavam-se a elas ainda, outras – como a globalização, o globalismo, os aliados, os valores da família tradicional, entre outras. Unânime ali era apenas o inimigo em comum: os anos vindouros da esquerda no poder.

No janeiro seguinte, o som do mar em uma manhã peculiar lhe convidou à janela. Diferentemente de todas as outras manhãs, ignorou a mesa posta do café, os jornais do dia e sentou-se na habitual poltrona ainda de pijamas.

Aquele mar revolto com o passar das ondas lhe trouxeram de volta às memórias de Brasília. Recordou-se do Estado Maior, dos inimigos, dos informes de inteligência, das teses desenvolvimentistas para o país que os consequentes choques do petróleo proibiram. Tateando, buscou os óculos na mesa ao lado e com olhar mais apurado sobre o horizonte-fim das Cagarras, apenas se perguntou:

E, se, primeiro, tirássemos ela?

Ilhas Cagarras

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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