Ouça!

13/05/2020
Posted in Colunistas
13/05/2020 Guilherme Romano

Antes mesmo do alarme do celular tocar, eles já estão lá fora circulando. Às sextas-feiras, são os ruídos despretensiosos da montagem da feira que ganham voltagem. Nos dias normais do passado eram os aviões quem despertavam todos os dias, pontualmente, às seis da manhã, no horário de Congonhas.

No entanto, como a nossa atualidade é de dias marginais, outros sons tomaram esse espaço,  minuto a minuto. A quarentena veio e não respeita qualquer das hierarquias. Outro dia, para surpresa do quarteirão, quem acordou a vizinhança foi um tiroteio na porta do açougue, logo ali embaixo.  Vieram, então, as sirenes da polícia e a televisão sensacionalista, ao vivo.

Os sons, como nós, vivem também as suas monotonias de todos dias. A água da pia sempre tem o mesmo acorde. Outros da mesma categoria,  são os das motos: sempre em aceleração.  O dos gamers do Youtube  vivem da mesmice do“fala galera” e os da Disney são em uníssono na voz quase fanha do seu dublador.

Essa monotonia dos sons tem também as suas vaidades: as vinhetas televisivas. Nos jornais,  o que soa primeiro são os ecos de tragédias, as notícias internacionais e, por fim, a dos créditos. Elas ainda complementam os comerciais e a teledramaturgia num emaranhado de sons que, ouvidos à distância, parecem os mesmos do dia anterior.

Na cozinha de casa quem tem destaque é o micro-ondas: seu sonido é de difícil descrição; talvez a melhor delas seja o verbo ressecar em ação. Esse som em altas ondas de frequência carrega consigo também sua validade na contagem regressiva dos segundos do cronômetro. Depois, morre em póstumos bipsHora de comer.

Existe também a categoria dos sons taciturnos que nos envolvem de melancolia. Alguns deles, de alguma forma, se instauram, instantaneamente, logo após o adeus da vídeo chamada de todo dia com as pessoas que não ousamos nem abraçar ou beijar nesses dias de recolhimento. São os sons da saudade.

Outros, ainda nessa mesma categoria, nos visitam, ora em sonhos, ora em pensamentos, ora de relance. São distantes e, no tempo, ainda inalcançáveis. São feitos de passado e  hoje são tão presentes que parecem reais. Na verdade, são memórias sonoras da liberdade do ir, vir e viver, apenas.

Ainda na vastidão desse repertório infindável, outros sons são da categoria dos depurados. São, na formação, elevados de paz, estrutura e espírito. Eles, diferente dos demais, prosperam para mitigar as nossas inquietudes, as nossas fraquezas e mazelas. Alguns deles são feitos de notas apenas, como a música. Outros se gestam da esperança de todos os dias, como as orações refeitas na liturgia de cada um.

Seja qual for, cada qual na sua especialidade, os puros de paz, estrutura e espírito são aos quais devemos nos ater, guiar e balizar nesses tempos de incerteza e aflição. E que haja muita música e cada mais fé para cada um de nós.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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