A família do Instagram desapareceu na quarentena.

07/05/2020
Posted in Colunistas
07/05/2020 Fernando Baptista

Tá todo mundo enlouquecendo na quarentena.

São muitas tarefas para dar conta. É o home-office, as tarefas escolares, as tarefas domésticas, o sexo entre o casal, a organização da casa, que fica mais bagunçada porque tem muita gente o dia todo junto…

Ufa, cansei só de escrever.

De fato, é bastante cansativo ter que lidar com toda essa nova rotina. E tudo se torna mais cansativo porque junto de tudo isso, as expectativas de muitos são frustradas. Afinal, muitas pessoas só agora estão tendo a real dimensão do que é família.

Quando os casais só se encontravam aos finais de semana e os filhos e filhas chegavam à noite com todas as tarefas escolares feitas, já tendo jantado, tomado banho, era só colocar pra dormir. Tudo parecia mais simples.

Porém, na medida em que as pessoas se acostumaram a viver esse modelo de família terceirizada, muitas perderam o real sentido do que é estar em família. Casais brigam, filhos e filhas bagunçam, demandam dos pais e mães a todo momento, brigam entre si, e é isso. Essa é a família real. Meu tio diz o seguinte: família boa é a que tá no retrato.

A família terceirizada, na qual os filhos e filhas chegam em casa só pra dormir e os casais se encontram aos finais de semana, depois de uma longa jornada profissional e acadêmica é menos complexa. É só chegar no final de semana, ir ao parque, à praia ou à casa dos familiares, tirar foto com todos sorrindo e postar no Instagram. Essa é a família do retrato.

Mas, a família real é a que está para além do retrato. É aquela que tem problema, que tem conflito, que tem boletos vencendo, que tem filhos e filhas recebendo reclamação da escola, mas que também tem momentos de prazer, que tem dinheiro sobrando pra fazer uma viagem, que tem os filhos e filhas tirando notas boas. Tudo isso e muito mais, faz parte deste agrupamento chamado família. Porém, na medida em que a rotina de trabalho e de toda a demanda que a sociedade nos impõe vai batendo à porta, nós vamos perdendo essa ideia de família real e vamos criando na nossa cabeça uma família ideal e fofinha.

Talvez esse seja o motivo de tantos conflitos familiares, de casais se separando e de pais e mães enlouquecendo com os filhos e filhas em casa. Estão se dando conta de que a família real não é aquela que está no retrato.

As redes sociais vieram para dar conta de uma demanda social que é a da idealização. De fato, é difícil encarar a realidade, é difícil se frustrar com um casamento que não corresponde às expectativas ou com os filhos que fogem do planejado. Mas, para crescermos enquanto família, precisaremos entrar em contato com esta realidade e, por mais dura que ela seja, entender que é assim mesmo.

Tem muita coisa boa nos encontros familiares. Mas, para que essas coisas boas encontrem espaço nas famílias, é preciso entender que as coisas que não são tão boas tocarão a campainha de vez em quando. E quando isso acontecer, é importante abrir a porta, oferecer a elas um café, convidá-las a se sentarem no sofá e escutar o que elas têm para nos dizer.

Creio que, quando abrimos a porta para a família real entrar, ela poderá nos dar muitas alegria e satisfação.

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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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