O Sopro do Sax

06/05/2020
Posted in Colunistas
06/05/2020 Guilherme Romano

Quando bate o bloqueio, surge com ele  o texto arrasado. E, a partir daí, numa luta de foices, as tentativas recobram forças no desserviço do rescaldo no qual expressões forçadas e parágrafos medíocres caminham lado a lado, num labirinto sem fim. São os ossos do ofício.

Colocando em retrospectiva, quinta-feira passada, na correria do dia, o universo resolve conspirar e me presenteia com duas palavras, entre tantas. Eram ali, na sua gênese, enigmáticas, sedutoras e indicavam um caminho seguro a ser seguido. Logo,  despojadas no papel branco, elas mostram a sua face cruel, mas talvez fosse apenas o cansaço intelectual da noite e o dia seguinte viria inspirado.

Sexta-feira: o esperado novo dia e outra tentativareorientação, ressignificação eram os motes do momento. Busco no espaço um sujeito, os fatos, vem a depuração, a análise e algo ali não funciona, agora o talvez era a noite mal dormida. O dia corre mais rápido do que esperado e nada de voltar ao texto. No final da noite a sensação era de mais  um tiro n’água.

Sábado de manhã, o itinerário do dia já estava decidido ao lado da xícara do café com leite; escrever para dar cabo àquela agonia. Mas, como era esperado, já estavam lá  à minha espera também, os malfadados poréns, a postos e agressivos. Mais uma vez, o raciocínio e as palavras simplesmente escapavam pelos dedos e nada saía, mesmo diante do esforço. Ponto final e pausa para o dia. 

Volto à minha carga, ao temido desafio no final do mesmo dia. Desta vez, dirijo-me ao meu claustro, aquele lugar sagrado no qual nenhum texto jamais escapou. Ali, sigo o meu ritual: fecho a porta, apago as luzes, silencio o celular, deito na cama e me coloco novamente diante do combate.

Mas, as primeiras linhas eram dilaceradas pelo poder das adagas que surgiam do escuro ainda mais afiadas. Como um velho pugilista já zonzo pelos golpes variados e na iminência do nocaute, percebia que tudo era ali na folha branca era um amontoado de nós entrecortados. Só cabia uma palavra naquela crise aguda: decepção.

Completamente dado por vencido, tateando no escuro um novo sentido naquele labirinto invencível, eis que um sopro de esperança do temido mundo exterior me arrebatou. Um alento transformador, um sopro solidário de um sax. Da janela lá de fora, da calçada da rua, na zona de guerra, um saxofonista cisava por completo a minha aflição perante a criação. Fazia mais, não dava apenas fim à minha angústia, mas a de todos que celebravam comigo aquele momento tão especial. Após a primeira música, todas as janelas eram só aplausos e gritos de agradecimento.

O set continuou, músicas, palmas, mais sax e aplausos iam abrandando os nossos corações desesperados na busca de respostas. Aquelas demonstrações, cada quem à sua maneira, por meio da melodia, diluíam como um bálsamo  a solidão dos sozinhos, a tristeza dos entristecidos, a angústia dos angustiados e a saudade dos saudosos.

E assim, como num simples recorte do sagrado pela compaixão daquele sax, tudo mudou à nossa volta. Os sorrisos voltaram, as amarras caíram, os bloqueios foram por ora suspensos e nada que antes aparentava ser, era o que realmente tramitava em segredo. Tudo voltava a conspirar na simplicidade da harmonia

Tenho que admitir, depois de ter experimentado isso, que toda dor, angústia ou aflição guarda igualmente o seu antídoto e que esse também tem o seu tempo próprio. A nós, nos cabe apenas confiar.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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