O futuro da lição de casa – mentoria e independência

28/04/2020
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28/04/2020 Livea Marchiori

A discussão acende uma polêmica, pois toca em um modelo instituído há longa data no Ensino, em todas as suas fases, do Fundamental ao Superior. Lição de casa, pesquisas e trabalhos em grupo são as métricas adotadas para avaliar o desempenho e a eficácia das aulas, dopróprio aluno, dos professores e métodos, estabelecer rankings de qualidade de escolas, regiões e em âmbitos nacional e internacional.

O escopo é abrangente, logo torna-se extremamente complexo pensar soluções. Fato é que, do jeito que está, não está funcionando para todos ou se tornou difícil avaliar seus resultados e sua real necessidade, quando e de que forma atividades extraclasse devem ser realizadas. A demanda por mudanças partiu do processo natural de surgimento de novas tecnologias que impactaram o modo de vida e, consequentemente, a disponibilidade de tempo e recursos para que a lição de casa continuasse a ser feita como era. Esses pontos já pontuados aqui pelo artigo “A romantização e a reinvenção da lição de casa”, da Dra Raquel Del Monde, levam a algumas alternativas, desde repensar a frequência e volume dessa atividade, até sua extinção.

São muitos os exemplos de inovações localizadas, em escolas com projetos disruptivos e abordagens mais holísticas que adotam metodologias modernas, como gameficação e learning by making, que buscam novas formas de avaliar o aprendizado e não necessariamente enxergam a necessidade de atividade complementar à carga horária regular. Mas, quando falamos na mudança em ampla escala para o currículo que deve obedecer às diretrizes nacionais e ser adotado pela Federação e pelos municípios, não há tanto espaço para experimentações.

De um outro ponto de vista, é importante pensarmos de que forma a lição de casa, para além de método de avaliação, impacta a vida do aluno, ajudando-o a se desenvolver naquilo que planeja individualmente para o futuro. Competências como foco, responsabilidade, senso de prioridade e administração de tempo além de metas pessoais independem de sua escolha de carreira e talvez sejam essas as habilidades que precise adquirir fora do turno escolar, antes dos desafios da vida adulta.

Sem um tutor  ou os pais para ajudarem com a tarefa, faltando ambiente apropriado e tendo a atenção dispersada pela proximidade do celular e outras distrações, como aplicativos que soam de minuto a minuto e grupos que não param de postar, o jovem não encontra significado na lição de casa que não a mera obrigação, perfeito sinônimo de aborrecimento e dificuldade quando o tema de estudo não é de seu interesse. Associada à cobrança e ao isolamento que o afasta de atividades mais prazerosas, somam-se a tensão, a angústia e o estresse por não conseguir desempenhá-la a contento, que podem desencadear e agravar doenças emocionais típicas da idade, como ansiedade, depressão, autodepreciação e FOMO (Fear of Missing Out  ou medo de ficar por fora nas redes sociais)

Temos, portanto, um ponto de início. Sabemos como a lição de casa não deve ser e o que ela deveria significar. Cada vez mais, o aluno precisa ser apoiado a tomar decisões independentes e que atendam às suas expectativas de desenvolvimento. Assumir a responsabilidade pela sua formação e adquirir autonomia para desempenhar tarefas que agreguem conhecimentos concernentes a seus planos. Nessa trajetória, o professor deve atuar como mentor, encontrando formas de prover as ferramentas necessárias para que ocorra o aprendizado na prática e sejam reajustados possíveis desvios de rota. Identificar tempestivamente as dificuldades no processo requer uma nova agenda, uma reorganização tanto de horários como funções. Na prática, vemos o dia de aula já extrapolando o turno escolar na forma de mentoria à distância e monitoramento através do alcance da tecnologia.

Ao saber que é o responsável primaz por suas conquistas, o jovem adquire o entendimento de que o tempo na companhia de livros didáticos e com a lição não é gasto, mas investido em sua preparação na busca de seus sonhos, necessitando apenas da monitoria de alguém que tenha mais experiência e vivência naquilo que ele se propõe a fazer – não necessariamente o professor. Essa figura ainda está em reconstrução na medida em que, assim como os próprios pais, não é mais a única referência e fonte de saber como no passado, fato que demonstram os muitos casos de agressão e desrespeito em sala de aula. Temos agora o Youtuber, também as marcas, ídolos do esporte e da música que os falam muito mais ao coração e à mente.

Reunir todos esses elementos para propor atividades interessantes ao jovem, educando-o para a vida atual, abre uma série de novas e animadoras possibilidades.

📸 Julia M. Cameron

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Livea Marchiori

Livea Angelica Pinto Marchiori, tem 46 anos e é formada em Letras Alemão-Português pela Universidade de São Paulo. Fluente também em inglês e espanhol e profissional de Redação Publicitária, Revisão e Tradução de Texto, com passagens por multinacionais, indústria hoteleira, agência de publicidade, editora e instituições de ensino. Dedicou-se por dois anos ao trabalho voluntário na comunidade de Paraisópolis, pelo Hospital Albert Einstein, em São Paulo, atuando com crianças em sala de aula e com o Clube de Leitura para adolescentes. Seu sonho é poder contribuir com o desenvolvimento intelectual dos jovens por meio de uma metodologia inclusiva que aproveite as novas tecnologias e suas infinitas possibilidades.
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