Diário da Quarentena

28/04/2020
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28/04/2020 Guilherme Romano

O alarme toca, primeiro, às seis e meia e, depois, às seis e quarenta da manhã. Com ele, vem o dia que se põe à prova depois uma olhada cuidadosa na janela. Na sequência, o cotidiano do café preto com leite, leituras atribuladas que vão da política ao horóscopo. Assim se dão as manhãs de uma quarentena.

O relógio, antes mesmo de ser um aliado, vira um adversário, pior, causa até inveja. Ele, o relógio e o seu tempo, no deslizar dos segundos, nunca falha. Toda vez, se mostra incorruptível pela sua precisão simétrica de ciclos dotada de ímpetos perfeitos.

Do outro lado, indo eu entre mais falhas do que acertos nessa manhã, erro na quantidade de água para o café. Dali em instantes, é a fumaça que chama a atenção, foi-se o pão. Depois disso, vem o desafio da manga, como interpretá-lo? Descascamos e buscamos o caroço, ou vamos direito aos cubos? Mais uma vez, ele, na parede, continua contando o tempo em harmonia.

Entre trancos e barrancos, a mesa é posta. Alimentados, todos seguem para as suas atividades e eu, mais uma vez, contra ele no tempo dos afazeres. Corremos com a louça, depois com as camas para depois naufragarmos nos e-mails, chats e ligações, sem falar nos protocolos de dígitos infinitos.

Nossa filha menor, diferentemente, segue para o seu banhinho de sol, porém não se trata de uma operação fácil. Ele, o tenro banhinho, se reveste de ritual, de alguma paciência e muita criatividade. Ora é um livro de princesas quem nos acompanha por ali, ora é o Júlio com a turma do Cocorico que nos presta mais uma visita.  Do celular, no viva voz, o atendente dá o comando para digitar três na antologia do telemarketing.

O nosso mais velho, vez ou outra, nos pede ajuda com as aulas. Tentamos sempre nos colocar em seu lugar e também no lugar dos professores, interpretando as nuances da nova escola à distância. Sem recreio, lanche e sem os amigos físicos, guerreiros são os nossos meninos, meninas e os nossos bravos professores nesses dias. Aliás, a vocês e a todos os profissionais da educação, nossos parabéns pelo Dia Internacional da Educação, comemorado hoje no dia da publicação dessa coluna.

Voltando, lá do celular, os minutos vão passando e agora, mais uma vez, do viva voz, pedem para agora a numeração do CNPJ. Perto dali, do mundo exterior inalcançável, chegam aos nossos ouvidos o primeiro bate panelas do dia. Logo os números cortam as horas na tela da TV para o ministro se demitir da órbita inócua de Brasília. Após a demissão e com a televisão desligada, o silêncio volta e é a vez das maritacas, que piam lavando de verde os humores.

Depois do voo livre das nossas amigas, a mesa é posta para o segundo round. Pratos, talheres e copos dão o toque de recolher, aquele benquisto divisor de águas entre as manhãs e tardes da quarentena. Vem as maçãs e depois a louça. Como esperado, o relógio,  agora o da geladeira, mostra que a etapa matinal foi vencida, mas antes dessa gentileza, as horas e os minutos continuam a desafiar com seu andar perfeito sem erros.

A nossa pequena filha, logo depois, é vencida pelo sono, turbinado antes por um banho. Chega o momento para se colocar a dita produtividade à prova. Nesse exercício de transpiração, assimilação e paciência, os e-mails são o tempo e relógio cobrando respostas. Depois, vem o WhatsApp e dele mensagens de trabalho e outras de vocação política sobre o extinto ministro.

Às cinco em ponto, não é o relógio quem dá a hora e, sim, mais uma vez as panelas. Elas denunciam agora os conchavos escabrosos e vergonhosos de Brasília. Num só coro de demandas, elas clamam por redenção e pelo fim da tristeza absoluta que domina a nós todos, os brasileiros.

Elas, cada qual com a sua bandeira, reprovam juntas o desdém do Estado que enterra, dia após dia, as vidas, a educação e a esperança do bem estar do nosso povo. São as panelas, as vozes das trincheiras que, desnudas de futuro, gritam por um novo destino de rumo certo.

A noite traz a lua nova e, com ela, o novo ciclo. Quem confirma é o mesmo relógio, com o qual devemos a todo instante nos reconectar. Ele, com as suas cruas verdades absolutas, é o único instrumento capaz de precisar em números a caminhada do tempo para o amanhã. Façamos dele, um porto seguro, um aliado na esperança do que tudo vai passar.

 

📸 Julia M Cameron

 

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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