Aula on-line é possível para autistas em quarentena?

27/04/2020
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27/04/2020 Raquel Del Monde

A pandemia alterou totalmente o cenário educacional em 2020. Aulas on-line constituem uma das soluções propostas pelas escolas na tentativa de minimizar as perdas e salvar o ano letivo. Em meio aos inúmeros questionamentos acerca do assunto (desde questões práticas e pontuais até reflexões mais profundas sobre o sistema educacional ou o impacto na saúde mental), alunos autistas e suas famílias precisam lidar com dificuldades extras, em muitos casos.

Quando se considera a amplitude do espectro do autismo, raramente uma afirmação genérica se aplica a todos os indivíduos e o tema de aulas à distância não é exceção.

Para alguns autistas, podemos observar, inclusive, um maior rendimento acadêmico. Aqui se enquadram aqueles com perfil autodidata, bom potencial intelectual, habilidades linguísticas bem desenvolvidas, alfabetizados, com tempo de atenção razoável, e em condições ambientais favoráveis. A ausência da demanda social, dos estressores sensoriais (barulhos, cheiros, materiais diversos) e do controle do ritmo de trabalho pode muito benéfica para eles.

Porém, para a maior parte dos autistas – especialmente nos ciclos iniciais – as aulas on line não são bem aproveitadas. Existem muitas razões para isso:

  • O não reconhecimento do lar como espaço de aulas e tarefas. A rigidez mental cria padrões inflexíveis: para muitos, a quebra da rotina habitual não faz da casa um lugar compatível com essas atividades.
  • A linguagem e os recursos oferecidos na tela são geralmente elaborados para alunos típicos, sem déficits significativos de comunicação.
  • O material disponibilizado pode não ser adequado para seu perfil. Nas aulas presenciais, muitos autistas recebem material adaptado às suas características, o que é impraticável na modalidade on line.
  • A falta de suporte individualizado prejudica aqueles que necessitam da atenção 1:1. Pais e mães, em sua maioria, não têm preparo para assumir essa função.
  • A ansiedade. Crianças autistas não estão apenas sem aula; estão sem terapias e, em muitos casos, privados de atividades de lazer que desfrutavam antes do isolamento social. Sentem falta das pessoas com quem conviviam antes. Seus pais e irmãos também estão passando por um período de sobrecarga e estresse; há preocupações com saúde, trabalho, finanças. Há medo e incertezas no ar.

Este é um período inédito na vida de todos nós. Preservar nossa saúde física e mental deve ser nosso principal objetivo no momento. Portanto, para os autistas que não se beneficiam do novo sistema de aulas on-line, que tal direcionarmos o aprendizado para outros meios? Coisas que sejam mais prazerosas, sem sobrecarregar ninguém da família. Habilidades de linguagem podem ser ampliadas com músicas, rimas, desenhos na TV, contação de histórias, conversas.

Coordenação motora global e fina também se desenvolvem em brincadeiras diversas, dança, atividades manuais, tarefas domésticas. Alguns conceitos podem ser adquiridos em jogos na internet ou fazendo um bolo juntos.

Converse com a coordenação pedagógica da escola sobre o seu contexto específico. Se for o caso, peça as acomodações necessárias. Algumas vezes, os terapeutas das crianças podem ter um papel importante na mediação com a escola.

A oferta de conhecimentos significativos não se restringe ao currículo escolar.

 

📸 Stock Adobe

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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