Geração Humana

19/04/2020
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19/04/2020 Luana Maciel

Sou filha de uma linhagem indígena, européia e africana, assim como muitos brasileiros. Tenho na pele a história desse país, e estou vivendo nela, mais uma história que será lembrada.

Sou jovem e por isso muitos me vêem como imatura, talvez por isso eu me permita pensar e escrever. Sou imatura, minhas palavras não pesam e por isso posso escrever sem amarras. Sou livre do peso da palavra, isso é ser jovem. Mas talvez seja apenas uma ilusão, algo que nos dizem para não ouvirem o que falamos, ou para ignorarem o que escrevemos. 

Há muito escuto que sou o futuro do país, uma nova geração. Percebi nessas últimas semanas o que isso significa. 

Vivemos com debates dia após dia sobre todos os males do mundo, sobre os bons e os maus. Sobres os justos e corruptos… Mas, em relação a todos esses problemas, só veremos o real efeito em décadas, talvez até mais. Ou  não vemos como sair do ciclo, como mudar. Recentemente nos deparamos com algo que desolou o mundo, mais do que todas essas tragédias. Nos deparamos com um vírus que se propaga tão rapidamente que nem países de primeiro mundo conseguiram evitar. Pela primeira vez, estamos vendo as consequências dos nossos atos em dias, no máximo semanas. 

Nosso mundo não será mais o mesmo, seja fisicamente, pela falta de contato por um bom tempo, ou, tanto pelas cicatrizes que serão deixadas. Estamos em luto, não só pelas pessoas, mas pela nossa visão de mundo. Achávamos que a linha: estudar, se formar, trabalhar, casar e ter filhos era a única a ser seguida, no máximo com alguns desvios ou diferentes caminhos de se chegar no mesmo objetivo. Minha geração e as futuras vão crescer em um cenário diferente. Eventos sociais não serão mais, apenas por aparência, relações não serão mais, apenas por interesse. Estudo e trabalho já não são mais a mesma coisa. Tivemos que parar nossa rotina obsoleta e pragmática, para uma pausa silenciosa. Somos os responsáveis por criar e viver uma nova sociedade que tem consciência do coletivo e do individual.

Estamos vivendo na pele que ninguém sobrevive sozinho, nem mesmo um país. Precisamos dos outros ao mesmo tempo que também precisamos saber quem somos. Precisamos saber o nome dos nossos vizinhos assim como sabemos o nome do presidente. Precisamos gostar do que fazemos assim como gostamos da nossa família. Um mundo que vive em função, apenas do dinheiro, entra em falência. Assim como estamos vendo agora. 

Sou uma geração, que além de pensar em si, vai ter que pensar nas outras, pois se não, crianças vão nascer em meio a morte, ao caos e a miséria. E isso em questão de meses. Diferente do plástico que leva 100 ou mais anos para se decompor, a humanidade dentro de nós leva menos tempo para acabar. Se passarmos por isso e permanecermos humanos, minha geração cumpriu seu dever. Minha geração, não como os nascidos em determinado ano, mas todos aqueles que se consideram humanos.

Foto de Victor Moriyama em São Paulo publicada no Instagram Victor Moriyama/ Instagram/Reprodução

Luana Maciel

Luana Maciel tem 16 anos e cursa o Ensino Médio no Projeto Âncora. Participou da primeira edição do Desenho do Projeto de Vida
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