Olhe para dentro: sua ansiedade e pânico são mesmo frutos do isolamento?

15/04/2020
Posted in Colunistas
15/04/2020 Fernando Baptista

Não está nada fácil viver em quarentena. O isolamento social, o medo de contrair o vírus ou de ter um familiar doente tem causado pânico eansiedade em muita gente. E é com você que eu quero conversar hoje. Tanto com quem está sendo afetado por esse momento de crise, quanto com quem tem alguém próximo em sofrimento.

Uma primeira reflexão que eu te convido a fazer é: essa ansiedade e esse nico apareceram só agora?

Para quem vive nas grandes cidades, vivem diariamente uma rotina cercada por ansiedades. Para os adultos, são muitos prazos, reuniões de trabalho, filhos na escola, rotina de casa, boletos e mais boletos, e a ansiedade vai tomando conta. Para as crianças e adolescentes, também não é fácil. Embora muita gente acredite que criança e adolescente não sofrem. Te digo: sofrem, sim. São compromissos escolares, dificuldades em determinadas áreas do conhecimento, expectativas e decepções dos pais quando tiram uma nota baixa e na adolescência tudo isso se soma às paixões, sexualidade, amigos, baladas e por aí vai.

Como diria Caetano Veloso, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Todos, independente da faixa etária, vivem seus conflitos e vivem a todo momento tendo que administrar a ansiedade. Essa ansiedade que é potencializada com o momento que estamos vivendo. Por isso fiz aquela pergunta anteriormente. É importante aproveitarmos esse momento em que as atividades diárias estão reduzidas para olhar para dentro de nós e nos fazer essa pergunta: essa ansiedade tem a ver só com a quarentena?

É provável que essa resposta nos traga alguns esclarecimentos. Minha avó diria: meu filho, vamos com calma, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se colocamos tudo na conta da quarentena, pode ficar ainda mais pesado. Fazer essa distinção, pode nos ajudar a nos imunizar, não com álcool em gel ou com a higienização do corpo e dos ambientes (que é essencial, claro), mas por vezes esquecemos que somos humanos, cheios de emoções e sentimentos e que podemos sim sofrer na medida em que experimentamos um momento como esse. Observar o que já nos acompanha há um tempo e o que é da quarentena, pode nos ajudar nesse processo de imunização emocional.

Além disso, com a era tecnológica, nossa sociedade passou a viver momentos em que os produtos, as relações e as experiências duram pouco. Balman, sociólogo polonês chamou o nosso tempo de modernidade líquida. Justamente porque vivemos momentos em que as coisas não se sustentam. Já tentou segurar a água com a mão? Ela fica? Agora, coloca sobre sua mão um objeto sólido. Certamente ficará. Vivemos em uma sociedade ansiosa e na qual as coisas foram feitas para não durar. Essa característica do nosso tempo, pode aumentar ainda mais toda essa angústia. Afinal, o vírus está aí e ele vai embora a hora que bem entender. Essa necessidade de controlar tudo a nossa volta e de viver momentos com prazo de validade ou com a certeza de que determinadas coisas durarão pouco tempo é um desafio quando um vírus nos provoca e tira de nós essa sensação de que tudo está sob controle.

O que é de fato uma sensação. Longe de ser a verdade.

Viver esse momento colocando foco naquilo que nos dá prazer pode ser uma ótima alternativa. O momento atual é uma excelente oportunidade de nos descobrirmos. Novas habilidades, hobbies, prazeres podem se apresentar a nós. Aproveite e transforme esse momento num lindo tempo de novidades e descobertas.

Foto: Elina Krima

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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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