Isolamento de classes

14/04/2020
Posted in Artigos
14/04/2020 Enzo Rocha

O mundo é um lugar muito louco. Já era estranho se pensar, na época em que a gente saía de casa, que havia pessoas que não saíram. Seja por ter programado sair mais tarde, não poder por enfermidade ou não ter casa, na verdade. Tantas histórias sendo contadas e criadas simultaneamente, tantas visões e tantos pontos de vista sobre um mesmo ponto e vírgula.
Agora, estamos em casa. E a enfermidade está lá fora. Agora, o desespero toma muitas casas enquanto outras…ignora. Enquanto outras tomam proveito e tornam o ruim em conforto. E é nos dias de hoje que conseguimos ver cada reação possível diante de uma pandemia. Há os que entendem o que está acontecendo e roem as unhas esperando o pior. Há quem quer se informar, e em meio de horas de estudo, domina completamente o superficial e isso causa tremores em sua expressão. Há quem, tentando se informar, informa-se mal: e são, na maioria das vezes, as mesmas pessoas que gostam de falar o que sabem, causando pandemia de desinformação em meio à pandemia viral. Há quem, no meio disso, é ignorante ao aparente apocalipse, à mudança completa de vida, e vê o lado otimista. Vê sua família reunida como em noites de Natal e acompanha diariamente a felicidade daqueles rostos antes estressados e ansiosos pelo dia de amanhã. Há quem, nesses dias, não sorri e apenas se tranca. E é então que, para essas pessoas, se estabelece silenciosamente a missão de se consertarem antes do fim do apocalipse.

Falando em apocalipse, não pode faltar: há religiosos que são, muitas das vezes, ignorantes ao que está acontecendo mas seu instinto grita terror e eles gritam louvor para ouvidos mais que santos os acatarem, e, ao  dobrar do sorriso, que uma onda de choque cósmica e divina se desdobre sob as três dimensões espaciais a favor do servo que louva.

É interessante saber que, entre essa singela parte, há desespero e paz, mas dificilmente alguém imagina que existam pessoas que acordam e não saem de casa nem quando antes podiam, pelo simples fato de não ter seu lar erguido e fechado por muros e paredes. Ninguém imagina a dor e o desespero que antes se tinha, e menos ainda o que hoje se tem. Louco é pensar que ainda existem os rebeldes, que sabem sobre a pandemia, debocham de sua existência e, de peito estufado, abrem suas portas e respiram o ar como uma princesa da Disney  cheiraria uma rosa em um dia perfeito. Há quem, no início, trabalhava e pegava diariamente ônibus incrivelmente lotados na angústia ante qualquer movimento alheio e desintegrava a cada tosse, cada espirro, a cada nariz assoado.
Ainda mais louco é apenas pensar que citei muito, mas nem mesmo a grosso modo isso resume o que o mundo passa em tempos como esse.  As pessoas foram forçadas a distanciar-se umas das outras, mas em um mundo em rede e  virtual como o de hoje, nunca iremos de fato nos afastar.
Além de louco, triste é pensar que, em dias que o trabalho não é permitido como antes, pessoas desempregadas são forçadas a deitar-se no conforto da cama, mergulhando no desconforto mental de saber que estão em um lugar que não lhes é de graça e não terão dinheiro para que possam manter as paredes erguidas ao seu redor. Pessoas que, dependendo da distância do lar, em dias que são obrigados a se trancarem,  vivem diariamente na tormenta, no caos que imaginam que será quando tudo acabar.

O mundo mudou, mas permanece o mesmo. Vidas mudaram, vidas acabaram, mas a vida segue como antes. Com dor, desespero, alívio e paz. Com loucura, sanidade, ignorância e conhecimento. Com vida, com morte, com riqueza e com pobreza. Inclusive com falsas uniões de pessoas e nações, com interesses egoístas na sobrevivência e perseverança de seus patrimônios. Nem mesmo uma pandemia é capaz de impactar um mundo social, a ponto de nunca mais fazê-lo  ser o mesmo.
Assim como se isola o x para descobrirmos seu valor, estamos prestes a ver o que valem as relações humanas e como ajudam as virtuais. E não só isso: ainda há muito a desvendar, rir e chorar nesse isolamento de classes sociais.

Enzo Rocha

Enzo Cleto Rocha, tem 16 anos, é estudante do Ensino médio no Colégio Viver, em Cotia e participa do Projeto Âncora, em Cotia, São Paulo.
× Precisa de ajuda?