Vai ficar tudo bem

10/04/2020 Maria Clara Arantes

Hoje eu fui para uma cidade futurística, onde as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens, e estes queriam então dominar o mundo através do prazer sexual. Afinal, era tudo que lhes restava. Ontem, fui para um passado inexistente onde casas da elite guerreavam para se sentar no tão aclamado trono de ferro.

Minhas viagens nos livros, filmes e conversas entediadas se tornaram a única forma de prevenção contra o vírus, ou contra a quarentena. Sim, óbvio que concordo e apoio toda a mobilização mas existem muitas questões envolvidas quando paramos de ter nossa vida cotidiana e passamos a ficar apenas no porto seguro de casa, que,  para muitos, pode nem ser tão seguro assim.

A rotina, para mim, era uma espécie de fuga da fantasia dos meus livros ou da realidade da minha casa, me dava uma sensação de controle da minha vida mas sei que esse conceito não existe por agora. Era reconfortante saber que todo dia iria acordar às 5h e às 17h estaria fervendo água para o café.
O mais incrível é saber que muitos pensam assim: saber que a rotina também era essa fuga e esse conforto, mas ao mesmo tempo era um fardo.

Então que tipo de espécie masoquista somos, para achar conforto no nosso maior incômodo?

Por que as pessoas que eu via todos os dias no ônibus, agora estão em casa postando a todo momento que não aguentam mais a solidão das próprias paredes? Assim chegam as muitas questões que mencionei – para mim, casa e lar são diferentes. Meu quarto é meu lar onde me sinto bem e livre apesar do concreto que me cerca, onde as paredes tem o dever de me proteger, não prender.

Parando um pouco de falar de mim e pensando no Brasil em geral, mulheres em suas casas (não lares),  que antes podiam sair pela obrigação, agora não podem mais. E óbvio que a culpa nunca será das medidas de prevenção porque elas sim são necessárias. Mas em um país como o nosso, o coronavírus se soma a várias outras doenças sociais como os índices de violência doméstica.

Lembrando que este é apenas um exemplo.

Agora, pensando nas marcas que essa crise irá nos deixar. No afastamento que sofremos e podemos acabar nos acostumando, nos braços que pararam de abraçar e nas bocas que não beijam mais. Mesmo você que não é chegado em abraços, pense nas bocas!

E, claro, nas mentes que pensam demais. Tem sido muito difícil ocupar todo esse espaço mental sem a obrigação de ocupá-lo, e sim, minha melhor explicação para isso é que somos uma espécie masoquista e sem autocontrole.
Agora, apesar das classes, diferenças e renda, enfrentamos, de alguma forma, o mesmo problema. Onde nos vemos inteiramente sozinhos em nossas mentes tão destrutivas, enquanto pessoas morrem em volta e presidentes dizem que estamos sendo improdutivos.

Mas, como os mais alucinados ou mais esperançosos dizem, vai ficar tudo bem.

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Maria Clara Arantes

Maria Clara Arantes tem 16 anos, é estudante do Ensino médio na Etec Fernando Prestes, em Sorocaba, São Paulo.
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