​“Tudo sobre o controle”: Economia e Estado em tempos de COVID-19

O “The Economist” é a revista mais importante na área da economia do mundo. E suas duas últimas capas são reveladoras. Está estampada em uma delas a inscrição “Everthing’s under control”, evidenciando a iminente e necessária “mão do Estado” sobre a vida cotidiana dos indivíduos durante e após o COVID-19; a outra se intitula “The Next Calamity” anunciando a possível derrocada das economias dos países pobres e emergentes, como o Brasil, após a pandemia.

Hoje eu estava refletindo com um grupo de colegas investigadores que também estão ocupados em pensar sobre as projeções e os impactos econômicos e sociais da pandemia na América Latina. E dois dos principais prognósticos que têm se evidenciado vão diretamente ao encontro das assertivas capas da revista supracitada: o Estado irá fortalecer sua atuação em todos aspectos da vida pública, inclusive nos mercados; e as economias pobres e emergentes, simulacros e visceralmente dependentes do capital estrangeiro e especulativo, como o Brasil, irão desmoronar. E isso implicará, como historicamente sempre ocorreu, num agravamento das condições de vida dos mais empobrecidos e vulneráveis.

Assim, o Estado terá que fazer chegar também nas mãos dos mais pobres, dos desempregados, dos subempregados, dos ditos “autônomos-empreendedores” (toda essa classe advinda da precarização das novas relações trabalhistas – a uberização do trabalho, diriam alguns pesquisadores) algum recurso. Diretamente. Sem arrodeios. Sem condições (agora, talvez, todos entenderão o alcance do Bolsa Família para fazer girar as economias, diminuir desigualdades e melhorar as condições de vida de TODOS! – inclusive dos mais ricos!)

Em outras palavras, o discurso neoliberal do “Estado mínimo” acabou. – e não há previsão de sua volta! A pauta reformista de Guedes, no Brasil, não tem mais sentido. E isso se deve ao fato de que o capitalismo, globalmente,  está em fase de reinvenção ou de seu fim.

A esperança é que a humanidade possa encontrar novos e melhores caminhos depois disso tudo. Alguns investigadores apontam, inclusive, que o capitalismo já está doente há tempos e estamos a viver os efeitos colaterais de uma dramática transição para novas formas de gerarmos e distribuirmos recursos e riquezas.

Talvez eles tenham razão. Afinal, umas das lições da atual pandemia é que, com a globalização e a mundialização, as fronteiras nacionais tem perdido cada vez mais o seu sentido.

Nesse contexto, os provincialismos resistem ao necessário reconhecimento de uma cidadania planetária a todos os seres humanos. Proliferam-se, por exemplo, discursos raivosos, messiânicos e obscurantistas sobre os fins dos tempos, a chegada de um Messias (inclusive a de um certo Jair Messias!) e a construção de muros reais ou simbólicos, só agravando o quadro socialmente esquizóide, levando consolo provisório às almas mais angustiadas e aos cérebros menos exercitados.

Portanto, as formas de produção de riqueza, de distribuição de renda, de políticas públicas em ciência, educação e saúde precisarão se reinventar. Há anos que investigadores da área apontam para isso. Mas, enfim, o “american way of life” do consumismo desenfreado ou das soluções simplistas e salvíficas “à esquerda” ou “à direita” nos deixaram míopes para os problemas sérios que há tempos temos e seguimos tendo. E será que, depois disso tudo, continuaremos, da mesma forma, a tê-los?

A oportunidade de mudança está dramaticamente diante dos olhos de todos nós. E quem diria que isso seria possível por causa de uma pandemia causada por um vírus? Quem iria supor que uma “gripezinha” planetária evidenciaria de forma tão crua que somos apenas uma frágil espécie sob o mesmo globo (sim, é mesmo redondo!) terrestre.

Portanto, efetivamente, não será construindo muros contra os “Outros”, os “Estrangeiros”, os “Ímpios”, os “Hereges”, os “Imigrantes”, os “Pobres” que superaremos tudo isso. Afinal, resguardar-se dentro de muralhas, de condomínios, de shoppings, de camarotes, de cruzeiros marítimos, de grupos de iguais no WhatsApp não irá funcionar pois, como a atual pandemia está provando, a peste, a fome, a miséria, a ignorância e/ou as péssimas condições sanitárias e educacionais de qualquer canto do mundo (como uma feira livre no interior da China, por exemplo) podem acarretar num problema sem precedentes em nível global.

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Alexsandro dos Santos Machado

Alexsandro dos Santos Machado – é Mentor CORE. Educador e formador na área de Educação e Saúde, com foco em Inovação Pedagógica, Pedagogia da Intuição e Narrativas (Auto) Biográficas. Graduado em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil (2003), Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria (2005), Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2012) e Pós-Doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – Pernambuco (2016). Atualmente, Professor Adjunto do Curso de Bacharelado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco.
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