O último romântico da Ponte Aérea

10/03/2020 Guilherme Romano

O chão quadriculado em branco e preto, tão paulistano de Congonhas é a primeira das memórias de uma curta viagem. Já diziam os daqui, no mesmo preto e branco que para o Rio, bastava um pulo: a carinhosa ponte aérea a bordo de um Electra.

Os tempos eram outros. Congonhas, do seu terraço, via partir aqueles saudosos turbo hélices a cada quinze minutos com destino à Cidade Maravilhosa. Nas imediações, os bairros de Moema e do Jabaquara eram uma legião de casas e sobrados nas periferias da São Paulo de outrora. Já na pista, os passageiros eram obrigados a andar para embarcar nas aeronaves.

Acomodados, o comandante dava-lhes, educadamente, as boas-vindas. Canapés, whiskies e Campari complementavam a recepção e,  logo, as hélices começavam a girar e aqueles motores a roncar num ruído característico tão marcante nas memórias de muitos brasileiros.

A São Paulo da garoa cinza e de céu sempre encoberto ficava de uma vez por todas para trás. Logo, quem dava as coordenadas dali em diante era um céu de farda azul com estrelas de Brigadeiro. Para onde se olhava, via-se aquele horizonte infinito e majestoso.

Uma distração aqui, outra acolá, surgia por debaixo de nós, o ir e vir das ondas que ora verde, ora azul, num tom sobre tom canalizavam todos os olhares para si. A primeira a pedir passagem por lá com seu charme habitual, era a Ilhabela,  acompanhada do seu canal de São Sebastião.

Depois, verdes enseadas, barras e mais enseadas davam o prenúncio do que vinha por aí. Primeiro, um agridoce visual característico de Ubatuba que, mergulhada na mais atlântica das matas,  dava os limites para as caiçaras Trindade e Paraty.

Esbelta na sua totalidade, em 360 graus, a Ilha Grande resplandece naquele mar sem fim. Ao seu redor, como a mais linda das constelações, outras tantas ilhas, todas sem nome, porém, de belezas abissais salpicam o mar de Angra.

O azul continua a se impor e, serpenteando pelos mangues costeiros, anuncia as belezas profundas e intocadas da Marambaia. Dali, a altitude ganha todo o protagonismo, seu contorno de serras entre montanhas aponta para os céus como um dia Deus fez. São os horizontes retumbantes da Baía de Guanabara.

O voo do Electra daquela tarde ainda guardava a sua última cartada, talvez a melhor delas, muito por ser uma questão de sorte: a inesquecível vista do Pão de Açúcar e do Redentor. Para tal, o vento deve estar a favor e o voo fora do rush. Depois dali, amigos, não há mais nada a ser visto, comentado ou relembrado. Dali em diante, só o comando de aterrar por lá é o que interessa.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
× Precisa de ajuda?