Preamar em verbo, prosa e rima

04/03/2020
Posted in Colunistas
04/03/2020 Guilherme Romano

As palavras trazem dentro de si significados que, explícitos, reverberam nos variados dicionários. Respeitam, antes de tudo, as regras sejam essas morfológicas, semânticas ou etimológicas que, por fim, são regidas pela dominância da sintaxe. São essas as tais engenharias gramaticais que zelam por toda a nossa língua.

Elas, por outro lado, são também apenas palavras, núcleos intempestivos de expressão que, ao longo do tempo, se reacomodam de acordo com os costumes, os diferentes usos e a cultura de forma geral.

Nessa  busca incessante pela reinvenção, muitas delas perecem devido à concorrência voraz, outras ganham novos usos e, outras ainda, como as gírias, nascem,  perpetuando a beleza do idioma entre nós, seus usuários.

Certa vez, uma dessas palavras em completo desuso, entre a vida e a morte, resolveu se aventurar e voltar ao melhor dos seus dias. Aparecia, então, em interstícios nebulosos, rondava pensamentos e sonhos até convencer seu interlocutor a revisitar um velho dicionário à sua procura.

Naquela arqueologia, na seção da letra “p”, ele, enfim, a encontrou escrita num negrito reluzente. Para sua decepção, seu significado não guardava nenhuma relação com as suas ilusões. Imaginava ele, antes daquele encontro fúnebre, amores, paixões e até os mais tórridos romances.

O que ele, ao fim, encontrou naquelas páginas do pai dos burros eram menções à mais alta das marés. Indo mais fundo naquela desilusão, descobriu ainda uma linha média das máximas das marés, a inócua medida de delimitação dos terrenos costeiros para a Marinha brasileira.

Diante dos resultados pífios, resolveu, ele, então, num acesso de raiva, reescrever a gênese daquela  palavra, ressignificá-la. Começou pelo seu prefixo “pre” o qual manteve em sua forma original, aquele estado inicial de algo que irá se profanar com o passar do tempo.

Logo, veio a questão do sufixo e, ali, ele imprimiu todo o seu talento. Respeitou, integralmente, a sua grafia, mantendo-a em seu caráter original: a junção da preposição “a” com o substantivo “mar”. O casamento entre esses dois expoentes recriava, para aquela velha palavra, um novo sentido, um recomeço, a condição de amar.

Da soma daquele prefixo com seu novo sufixo nascia, para aquele interlocutor, daquela palavra quase morta, um verbo potente e sexy, a ação de preamar.

Era ele, ao mesmo tempo, um estado de espírito, um prenúncio de qualquer forma de amor, seja o estopim da paixão ou mesmo o prelúdio do romance. Por fim, seu significado era o necessário homônimo da excitação visceral, humana e carnal.

De conceito formado e defeso por si só, o interlocutor resolveu coloca-lo a prova no seu cotidiano. Escrevia, falava, fazia rimas, sonetos e até comungava com seu novo verbo. Preamava as donzelas, as flores, os pássaros e até os astros.

Reinventava não só uma palavra, mas ressignificava a si mesmo. Era uma pessoa mais sensível, mas harmônica e, por que não, mais amorosa. Se apaixonava, “preamava” tudo e a todos. A fidelidade não era seu forte, porém, diante daqueles amores platônicos e efêmeros, ela pouco importava.

 

Aquele instante em que os olhos se tocam, as pernas tremem e o coração acelera era o que lhe movia dia a dia. Petulante, chegou até a imaginar que superava, enfim, o mestre dos corações apaixonados, o nosso poetinha, Vinicius de Moraes, que se apaixonava a todo instante. Refundou o célebre verso do Soneto de Fidelidade, que o amor seja infinito enquanto dure,  na forma de verbo transitivo e direto.

Feliz, aquele interlocutor resolveu, então, ganhar as ruas com seu novo verbo e, mesmo que poucos lhe dessem a necessária atenção, não desistiu e dirigiu até cartas aos principais jornais sobre sua nova tese, sem receber crédito algum.

Dessa outra decepção, de relance, percebeu um velho olhar. O mesmo que lhe enxergou e deu-lhe valia por todos aqueles anos. Concluiu dali que se preamasse todos os minutos aquela única coisa, seu verdadeiro e único amor, aquela única mulher, seria, por fim, o bastante, a melhor e a mais linda forma de amor que o mundo já presenciara até então.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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