Os Relacionamentos e a Saúde Mental

04/03/2020
Posted in Colunistas
04/03/2020 Fernando Baptista

Na Semana Internacional da Mulher, nosso tema é relacionamento e suas implicações para a saúde mental.

Casais se encontram e se escolhem por um conjunto de fatores, muitos desses inconscientes, não é incomum ouvirmos pessoas se perguntando o motivo que as fez apaixonar-se por alguém. A atração sexual ou a paixão são, na maioria das vezes, os fatores que motivam os encontros; a partir dessas trocas o casal vai descobrindo nesta convivência algum sentido ou motivação que os faz continuar investindo neste relacionamento.

Na medida em que vão se relacionando, por vezes, sem perceber, tanto homens quanto mulheres, em relacionamentos hétero ou homossexuais, repetem padrões aprendidos em suas famílias de origem. Não é incomum que mulheres autoritárias se unam a homens submissos, ou que mulheres muito controladoras ou ciumentas se unam a homens que sintam a necessidade de serem controlados.

Pois bem, a família é o nosso primeiro laboratório social. É nesta escola que, para o bem ou para o mal, aprenderemos como nos comportar e nos relacionar quando adultos. Os pais ensinam aos filhos modos de convivência, crenças e valores. E essas crianças, a partir do aprendizado oferecido pelos pais, rejeitarão alguns dos ensinamentos mas repetirão a grande maioria deles, ou seja: o modo de se relacionar dos pais, influenciará no modo como os filhos se relacionarão no futuro com seus parceiros ou parceiras. Se o pai ensina ao filho, mesmo sem usar palavras, que a mulher deve se submeter ao homem, o filho terá grandes chances de tratar sua futura esposa ou esposo da mesma forma.

A partir do ideal romântico no qual aprendemos que devemos buscar alguém que nos complete, como a tampa da panela, a alma gêmea ou a metade da laranja, vamos criando uma falsa ilusão de completude, isto é, de que só estamos completos se estamos com alguém. Essa visão utópica de construção de relacionamento é um dos fatores que contribuirá para que os casais tenham dificuldades no rompimento de uma relação, para alguns é como se estivessem lhe retirando uma parte do corpo, afinal, se o parceiro encontra na mulher alguém que “o complete”, esse complemento jamais poderá faltar.

A complementaridade é exatamente quando os casais se unem baseados na falta, por exemplo, uma mulher que foi abandonada pelo pai, encontra no marido essa figura masculina que lhe faltou, e nesta relação, sob qualquer ameaça de término, esta mulher poderá responder com uma série de sintomas. Freud, em seus estudos, ressaltou que o ser humano é um sujeito em falta, porém, aquilo que falta em nós não encontraremos no outro.

Muitos dos casos de violência contra a mulher, têm a ver com o fato delas terem perdido o interesse no companheiro. Esses homens, movidos por uma dificuldade de lidar com a falta e com a frustração, agridem e matam suas companheiras. É inadmissível para muitos lidar com o não ou com o limite que o outro estabelece.

Nesta Semana Internacional da Mulher, convido a escola a pensar de que forma ela pode contribuir para a mudança dessa triste realidade. Professores e professoras têm um papel fundamental na vida das crianças e adolescentes. Se nós, educadores, nos comprometermos com uma infância e uma adolescência que saiba lidar com o não, com os limites e com a frustração, contribuiremos para que nossos alunos e alunas construam, no futuro, relacionamentos mais saudáveis.

Foto de cottonbro no Pexels
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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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