Autoridade e disciplina

27/02/2020
Posted in Colunistas
27/02/2020 Raquel Del Monde

Discorrer sobre a construção de uma relação que envolve autoridade entre seres humanos daria um tratado. Um não, vários! Certamente não temos essa pretensão por aqui. Ainda assim, dentro da nossa proposta de falar sobre a escola enquanto espaço coletivo, de convivência, torna-se necessário trazer algumas reflexões sobre autoridade e disciplina, conceitos nem sempre bem compreendidos.

Autoridade envolve poder e uma estrutura de hierarquia. Nossas organizações sociais são baseadas em modelos em que a ordem é estabelecida por figuras que detém algum tipo de controle sobre os que estão subordinados a elas, já que, com frequência, a aceitação dos preceitos exigidos implica na sujeição de vontades individuais. De modo geral, a autoridade pode advir de:

  • cargo ou função: como ocorre com os representantes da lei, patrões, guardiões/ responsáveis, funções hierarquicamente superiores. São figuras que detém o domínio de distribuir sanções ou benefícios – a obediência a elas está condicionada, em grande parte, à percepção de ganhos e perdas.
  • reconhecimento da maestria em determinada área: figuras respeitadas por seu conhecimento, experiência, talento, obras. Sua influência deriva da admiração que conquistaram – tornam-se exemplos e fontes de inspiração para os demais.
  • carisma e liderança: figuras que arrebanham seguidores que cultuam suas ideias ou atributos pessoais. Aqui se incluem líderes de grupos variados (associações, seitas, facções etc.), personalidades da mídia, influencers em geral.
  • imposição pela força: casos em que a obediência é obtida por ameaças ou atos violentos.

Muitas vezes, esses poderes estão misturados: podemos ver um responsável por um bebê que usa da força física para subjugar, por exemplo; ou um diretor de empresa que também inspira respeito pela competência e dinamismo. 

Disciplina, por sua vez, refere-se ao cumprimento de normas e regras, estabelecidas por um grupo ou pelo próprio indivíduo. Não é, como muita gente pensa, um resultado direto da autoridade a que a pessoa está envolvida, pois envolve habilidades particulares como cognição social, tolerância à frustração, capacidade de adaptação, autocontrole, organização e persistência. Ou seja, também não se resume a atributos morais. Crianças, neurotípicas ou não, são seres humanos que se encontram em estágios variados em relação ao desenvolvimento dessas competências. Quando se trata de determinada deficiência ou condição (deficiência intelectual, TDAH, autismo, transtornos psiquiátricos), a não-conformidade às regras ou figuras de autoridade pode resultar de suas dificuldades específicas.

O embate de vontades individuais sempre vai permear os ambientes coletivos.

Todas as pessoas, independente de sua idade, têm vontades, desejos e intenções que não podem ser realizados, por uma infinidade de motivos. Algumas vezes, por serem irreais (quero ter uma girafa em casa; quero me transformar na celebridade X), inviáveis (ganho pouco, mas quero ter uma coleção de carros) ou por entrarem em conflito com os direitos de outra pessoa (quero levar o brinquedo do meu amigo; estou com raiva dessa pessoa e quero bater nela). Em outras ocasiões, porque implicam em consequências negativas para a própria pessoa (quero viver de pizza e refrigerante, quero maratonar séries da Netflix todos os dias) ou se opõem ao interesse coletivo do ambiente (quero jogar na quadra, mas está na hora da aula; quero ir ao cinema, mas estou em horário de trabalho).

Alunos dentro de uma escola também têm vontades, muitas vezes em desacordo com a realidade e a razão. Quando sua compreensão geral, sua capacidade de inferir consequências e suas habilidades de autocontrole mostrarem-se insuficientes para assimilar as demandas, cabe aos adultos apontar as razões que sustentam as normas do grupo e auxiliá-las na elaboração da conduta adequada. Isso implica em estabelecer regras claras e bem fundamentadas, dar exemplos, demonstrar coerência e ser consistente. Resistência, oposição e desafio são reações naturais de contrariedade, e a intensidade destas varia imensamente, e não apenas por “falta de educação”, mas principalmente em função de características pessoais. Sim, podemos concordar que “a educação começa em casa”, mas ela não termina lá. O aprendizado das regras de convívio social só se dá num ambiente coletivo. Precisa haver um limite para o discurso raso e simplista, propagado pelo senso comum, que tudo se resume a “rédea curta” e “saber dizer não”. Além de ignorar a complexidade da natureza humana e suas contradições, ele desconsidera o contexto social em que estamos inseridos.

Uma relação de autoridade fundamentada no controle e na coerção pode, sim, conseguir obediência (que se mantém enquanto estiver presente a intimidação). Mas conseguir colaboração é o ponto que devemos realmente almejar, o ponto em que a pessoa voluntariamente se empenha para conseguir um resultado que aprendeu a valorizar. Isso passa pelo entendimento de que, em cada corpo infantil mora um ser humano – ainda que num estágio particular de desenvolvimento – que merece consideração, escuta e compaixão. É numa relação de respeito que a criança terá despertado seu desejo de participar e de colaborar.

 

 

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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