Doces Bárbaros

26/02/2020
Posted in Colunistas
26/02/2020 Guilherme Romano

O coração de qualquer escola de samba ou bloco de rua, não importa o seu tamanho, pulsa pela bateria e, mais, passa integralmente pelo ressoar do tambor e as suas inúmeras variantes. São eles que ditam a revolução dos ritmos através da simplicidade dos seus toques e repiques, são eles também que discorrem sobre os destinos tanto das avenidas como das nossas frágeis vidas.

O pretérito imperfeito deles viaja para além dos primórdios do Carnaval, nasceram como os homens da natureza e os auxiliaram na linguagem antes mesmo das palavras. Filhos das selvas, aqueles troncos elípticos e sem matéria emitiam sons que invariavelmente virariam códigos em forma de sinais para aqueles que viviam nas cavernas. Seus couros vieram das caças moldando então aqueles sonidos para toda uma eternidade.

Desde então, o tambor integrou clãs, exércitos e até os mais poderosos impérios. Conheceu o Egito, Roma e a África. Por lá, ganhou outros matizes, novos signos na forma da canção. Circular na forma e em espírito, tomou todo aquele mundo para si, decantou estilos que vão do ancestral australiano ao profundo do jazz norte-americano. Mora em Montevideo, no candombe platense, ao mesmo tempo reza ainda pelas entranhas de Cuba, mas a sua certeza maior, o seu lugar é o Brasil e o seu Carnaval.

Só se pode medir a sua magnitude e o seu poder de fato no recuo da Marquês de Sapucaí: ali ele se infla, quando se perfila a bateria em harmonia. É ele quem ganha ou perde os desfiles por lá. Cada mestre seu tem a feliz missão de ordenar e distribuir a alegria em forma de som enquanto todo ecossistema do samba ecoa pelo samba enredo.

Na Bahia, ele desempenha a função de pulsão dos blocos,  no Barra-Ondina ou no Campo Grande. Pela Timbalada, ele evoca as raízes de força e superação de todo aquele povo. Já no Olodum, os atabaques que colorem aquele axé são de pura explosão. Diferentemente, os Filhos de Gandhi os levam em procissão. Ali, os tambores e similares têm funções mais canônicas, são eles os responsáveis por purificar toda a Salvador.

Mais ao norte, no marco zero do Recife são as nações do maracatu que compõem suas batidas. Elas mais do que todos os outros são reféns dos caprichos do seu sincretismo. É o caboclo, é a menina, é o velho de cachimbo que emana notas e todos os seus hinos que perpassam do açoite ao esplendor daquela lua de carnaval. Os velhos tambores também ganham por ali;  outra verte nas madrugadas de sábado do Galo. Dali, suas forças ganham proporções de milhares e milhares de foliões que se aglomeram em torno de seu rufo uni sonoro.

Doce como aqueles bárbaros de um famoso samba enredo que ganhou, mas não levou, o tambor e as suas diferentes latitudes e longitudes são tanto a ressignificação como a renovação não só do Carnaval, mas também do ser humano de uma forma geral. Só por meio deles se consegue acessar o melhor de nós, uma linha tênue, um entendimento entre nós e o nosso mais longínquo ancestral, fato que nos permite, todos os anos, inconscientemente e visceralmente, recobrar as esperanças de dias melhores entre nós.

 

 

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
× Precisa de ajuda?