Muito prazer, sou uma pessoa!

20/02/2020
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20/02/2020 Raquel Del Monde

Há muitos anos, no primeiro dia de aula, ainda no ensino infantil, meu filho mais novo chegou da escola todo empolgado. Foi logo falando da nova professora, das histórias que ela contou do seu bichinho de estimação, de como ela era legal. Haviam conversado muito aquela manhã: as crianças também falaram de suas vidas, de bichinhos de estimação e de muitas outras coisas. O vínculo entre professora e alunos iniciado naquele dia estabeleceu as bases de um relacionamento próximo, afetivo e motivador, que se manteve o ano todo.

Apresentar-se e deixar que a outra pessoa se apresente é mais do que mera formalidade. É o momento em que as pessoas mostram sua receptividade ao novo relacionamento, sinalizam sua disposição em estabelecer trocas significativas. É um rito que desperta expectativas e delineia a moldura daquela interação.

Imaginem o potencial desse contato inicial na sala de aula. A humanização das relações entre professores e alunos é essencial para a construção de um ambiente socialmente saudável, que promove a união e a cooperação. Todos nós temos necessidade de ser reconhecidos em nossa singularidade. Compartilhar informações é um meio de se fazer conhecer e permitir a troca, esse elemento indispensável da convivência humana. Para os alunos atípicos, esta etapa é ainda mais importante – especialmente para aqueles com as chamadas “deficiências invisíveis” (TDAH, TEA, transtornos de aprendizagem), cujas particularidades são frequentemente interpretadas como falta de educação, esquiva ou enfrentamento.

Às vezes me pergunto em que ponto da jornada nós deixamos de valorizar este momento dentro das escolas. Parece haver uma compreensão equivocada no que se refere à hierarquia da relação entre um educador e seus alunos, como se a personalização do vínculo prejudicasse a relação de autoridade que precisa também ser estabelecida. Já ouvi professores dizerem sobre isso: “Não sou seu amiguinho, sou seu professor!”. É lamentável a falta de entendimento sobre a questão.

Pra começar, podemos ter um convívio amistoso e agradável sem ultrapassar os limites de uma intimidade imprópria para determinado contexto – como fazemos em ambientes de trabalho ou outras atividades coletivas. Afinal, um profissional deve estar apto a traçar esses limites. É totalmente inapropriado, por exemplo, um professor fazer “desabafos” pessoais em sala de aula ou tentar impor sua visão religiosa. Um outro aspecto é que estabelecer um vínculo afetivo e próximo não significa abrir mão da função de conduzir o grupo ou abrir mão do respeito: ao contrário, alunos costumam respeitar mais os adultos que se mostram abertos a ouvi-los e a tratá-los como pessoas e não como um número da lista de chamada ou como um problema. Há pessoas que ainda confundem a escuta empática com “passar a mão na cabeça”. Não é nada disso. A perspectiva do aluno também precisa ser levada em consideração na construção de regras de convivência e na resolução de conflitos.

Algumas vezes, a importância do contato inicial é minimizada em nome da pressão para cumprir um cronograma apertado. Mas acreditem: o tempo investido nisso pode evitar uma série de desgastes futuros, seja no manejo de salas indisciplinadas, de atitudes de insubordinação, de problemas na cooperação entre alunos, etc.

É claro que não podemos reduzir toda a complexidade da dinâmica das relações interpessoais ao momento da apresentação, mas fazer um bom uso desta oportunidade pode ser o primeiro passo para humanizar a convivência na escola.

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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