O Canto Bravo

18/02/2020 Guilherme Romano

Naquela porção sul do Sahy é a lua quem canta; sua influência se dá através das tábuas das marés. Ali, as ondas de angulação reta ditam um cotidiano diverso daquele do outro extremo da Barra do Sahy. Na alta da maré, as ondas abraçam os arrecifes no sopé do morro, dando sentido literal ao nome daquele canto de praia. Na contramão, na baixa da maré, são outros os eventos que dão as caras por ali: desde as piscinas naturais ao nado sincronizado das tartarugas.

Aquele canto da praia, tão próprio de si, estabelece suas fronteiras com as demais regiões da praia através de acidentes tão naturais, que passam até desapercebidos pelos não locais. O primeiro deles, à esquerda de quem vê as ilhas da areia, é um braço de rio que recorta a praia e desemboca, doce, no mar. Logo ali, na primeira duna, uma trave delimita as peladas de todos os dias, ela se faz também de porta de entrada para aquele pedacinho de praia.

Indo mais adiante pela areia, o morro do Copocu faz a fronteira sul do Canto Bravo com a Preta, a sua praia vizinha. Quando se deixa a areia para trás e ganha-se o deque de madeira sobre as pedras, encontra-se uma trilha de resquício atlântico e,  ao seu término, um coqueiro baliza o lugar exato para um mergulho no mar. São alguns metros de liberdade em forma de adrenalina com um final salgado de redenção.

Estabelecidas as suas fronteiras e adentrando-se em seus limites, pode se perceber o que o Canto Bravo guarda de tão especial. Lá, diante daquela faixa de praia da enseada do Sahy, poucas casas formam o que pode se chamar da verdadeira silhueta do verão. Uma combinação sem excessos entre o etéreo do trópico, a arquitetura de praia e o verdejante da mata e do mar. Ali, a água se apresenta ora doce, ora salgada, numa simbiose salpicada de sombra e sol que remansa além dos pensamentos, o corpo e a alma através do ressoar daquele mítico cantão de mar.

No alto verão, quando o almoço se vai pela borra do café e as redes da varanda se insinuam para siesta, pontualmente, entre duas e três da tarde, uma chuva cai. Sua breve visita dura em torno de quinze minutos, ela refresca o gramado, dá sustento às orquídeas e, pelo cheiro da terra molhada, anuncia o início de mais uma tarde naquele verão.

Os dias dali são regados de mar, caminhadas, uma ida à vila, um pastel na praia, um futebol ali e outro capítulo de um livro qualquer. Porém, sua liturgia final é o cair do sol no horizonte daquele mar. Nesse instante, se faz a hora de retornar às areias e dali, sem esforço algum, o exercício é simplesmente contemplar as cores do astro contra o espelho do mar. As ilhas vizinhas e seus relevos dão o contraste necessário para a aquarela diária.

Já a noite também tem os seus encantos e, claro, é a lua, mais uma vez, à sua maneira, que protagoniza os ritos por lá. O Canto Bravo, aquele ponto equidistante entre o Atlântico, a vila do Sahy e o ir e vir da Rio-Santos,  detém o poder de ser imune à mesmice da luminosidade artificial das cidades. Ali, naquele escuro prateado, o sorriso vem fácil do simples som da coruja, a gargalhada nasce do coaxar dos sapos do mangue, mas a gratidão vem mesmo através das estrelas daquele céu intocado. Lá, as constelações e sua Via Láctea dão os contornos finais para aquelas noites de brisa e paz.

 

 

 

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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