Automutilação: A dor que provoca alívio.

Fevereiro 12, 2020
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Fevereiro 12, 2020 Fernando Baptista

Parece paradoxal o título, mas é o que tenho escutado com frequência dos adolescentes no consultório e em palestras nas escolas: se ferem em busca do alívio.

​A automutilação é qualquer ato de agressão ao próprio corpo sem intenção de suicídio. Alguns cortam braços, pernas ou abdômen, outros batem em si mesmo e existem até aqueles que se queimam.

​Mas, o que os adolescentes estariam comunicando com isso?

​Comumente ouvimos dos adolescentes que ao se cortarem, ficam aliviados. Para quem está distante dessa prática é estranho escutar que um ferimento causará alívio.

​Pois bem, você já ouviu falar das feridas emocionais?

A adolescência é cercada de uma série de exigências. O corpo perfeito, a barriga sarada, o celular de última geração, a melhor colocação no vestibular, as melhores notas na escola, a melhor hora para perder a virgindade, a pessoa certa, a balada, a conquista do(a) crush.

Estar em um mundo onde há uma série de pressões não é nada fácil. Esse acúmulo de exigências sociais, familiares e da rede de amigos pode resultar em muita ansiedade, frustração e/ou feridas emocionais.

E como curá-las?

Se você está com dor de cabeça ou febre, é bem provável que ao tomar um medicamento, você fique bem. Mas a dor emocional não é linear. Não existe um medicamento para curar a frustração por não ter um corpo dito ideal, por vivenciar a separação dos pais ou por levar um pé na bunda do(a) crush.

Como eles mesmo dizem. “Se cortar.” – É o que tem para hoje.

Eles e elas, encontraram nesta prática uma possibilidade de aliviar essas feridas emocionais. Ao se cortar, eles concretizam a dor que até então era subjetiva. A ferida se torna visível e na medida em que a enxergam, fica mais fácil saber o que fazer com ela. A dor física ultrapassa a emocional e isso lhes causa alívio.

Seria bom se na escola além de português, matemática e ciências, aprendêssemos também o que fazer com nossas feridas emocionais. Afinal, quem consegue aprender equação do segundo grau no dia seguinte de ter visto os pais se agredirem fisicamente ou ao ter que lidar com o luto do seu pet?

A escola também se beneficia muito quando da espaço para as emoções de seus alunos e alunas.

Mas, será que a escola está disposta a sentar na cadeira da sala de aula e aprender com esta nova geração que lhe oferece novas demandas e desafios?

Enquanto nós, educadores, não olharmos para as feridas emocionais dos nossos estudantes, estaremos contribuindo para esta sociedade que privilegia as máquinas em detrimento das relações humanas e do olho no olho.

 

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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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