Eu não quero voltar pra escola!

06/02/2020
Posted in Colunistas
06/02/2020 Fernando Baptista

O mundo dos adultos parece tão mais simples que o dos adolescentes. Muitos adultos criticam os adolescentes, que se pudessem escolher não voltariam para a escola após as férias. Mas, qual é o adulto que nunca se sentiu tentado a não voltar ao trabalho após um mês de descanso, viagem e prazer?

​Existe uma exigência e uma expectativa muito grandes depositadas sobre os adolescentes, me parece até uma projeção. Será que exigimos deles e delas aquilo que gostaríamos de ter sido quando tínhamos a sua idade?

Quantos adolescentes já ouviram: “Tirou 10 na prova? Não fez mais que a sua obrigação. Só estuda. Tem que tirar nota boa mesmo.”

​Há uma fantasia que permeia o imaginário da maioria das pessoas, de que temos que ser fortes e dar conta de tudo. E então, os adultos vão tentando incorporar essa máxima no mundo dos adolescentes, mesmo sabendo que isso não é possível em nenhuma faixa etária. Parece um jogo ou uma disputa de poder. Que vença aquele que resistir a todas as cobranças e ideais da sociedade.

Adultos vivem uma rotina intensa, onde trabalhar muito e ganhar muito dinheiro é o que os coloca no lugar de alguém que deu certo na vida. E essa lógica é transferida às crianças e adolescentes como sendo a ideal. Quantas crianças possuem agenda de “gente grande”, segunda: natação, terça: futebol, quarta: inglês, quinta: informática. E sexta?Ah, sexta é o último dia da semana. Pode descansar? Não, mais uma aula de inglês.

Mas e o prazer? Está incluso na sua agenda?

​Aulas de 50 minutos, que somadas chegam a 5 ou 6 horas e recreio de 20 minutos. Carga-horária de 8 horas e intervalo de 1 hora para o almoço. ​

​Vemos atualmente uma tempestade de diagnósticos psiquiátricos. São crianças hiperativas, adolescentes depressivos e ansiosos e adultos com Síndrome de Burnout, além dos transtornos de ansiedade e depressivos que também são recorrentes.

​Além de todas as exigências que a sociedade do capital e do consumo nos coloca, os adolescentes têm que lidar também com as exigências da família, da escola, do tio da perua, da avó, do irmão mais velho e assim vai.

​Tem como ficar saudável em um mundo onde só há cobrança e não há prazer?

​Tem como pular de alegria ao saber que vai voltar para escola, quando a escola é mais uma instituição que os obriga a fazer coisas e não estimula um aprendizado que seja prazeroso, divertido e colaborativo? A escola precisa repensar os seus métodos.

Quando ouvimos dos adolescentes que não querem voltar para a escola, a tendência é julgá-los e fazê-los entender que o mundo é assim mesmo. Mas por que não questionarmos junto com eles esse modelo que cansa, estressa e que tira o prazer de crianças, adolescentes e educadores?

​Precisamos mesmo projetar nossa insatisfação e frustração adulta nos adolescentes? Ou será que poderíamos contribuir com a construção de uma sociedade onde seja possível ter mais prazer do que obrigação?

​Temos duas possibilidades: começar a questionar e lutar contra esse sistema que só adoece e causa exaustão ou podemos continuar repetindo e contribuindo para a promoção dos transtornos ansiosos, depressivos, hiperativos, dentre outros.

​Quando um adolescente disser a um adulto: “eu não quero voltar para a escola”, e esse adulto lhe disser: “eu te entendo”,   começaremos,  então, a transformar esse mundo cansativo em um mundo onde o prazer tenha espaço na agenda.

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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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