Às margens do Congo

05/02/2020
Posted in Colunistas
05/02/2020 Guilherme Romano

A competição dita a ferro e fogo os meandros da vida por lá. É certo que, a partir disso, prospera o liberalismo que apenas respeita a lei do mais forte e por meio dele, as agruras para aquela sociedade. Ali, a intolerância ganha espaço, a força do machismo marginaliza o feminino exclusivamente para os fins de reprodução. O autoritarismo tem lá seu espaço para reger a tal hierarquia social frente aos oprimidos. Já o alimento conquistado é destinado primariamente aos mais fortes para que depois esses arruinem as migalhas para os demais. A violência, por outro lado, pesa a sua mão, repelindo qualquer quebra de costume e, nas sucessões do poder,  é a morte quem dá o veredito ao vencedor. Cada qual que habita por lá deve procurar a sua própria forma de sobrevivência, não importando os meios. Por fim, os rebeldes não são dignos de perdão e o clima pesa; seu ar está sempre suspenso no tear da guerra e do medo.

Na contramão disso, nas proximidades dali, há uma liberalidade geral dos costumes. A questão sexual nunca foi ou será problema. senão a reinvenção do próprio indivíduo. Já no quesito alimentar, o pouco é repartido sem qualquer competição, essa se resolve na afetividade daqueles indivíduos. As vias do poder reinante por ali são de traços matriarcais e qualquer tentativa de invasão ou intromissão daquele território é resolvida na intenção de se somar no lugar da repressão. Os indivíduos dali são encorajados, a todo instante, a cooperar entre si na busca da sobrevivência grupal e paira ali um certo clima de harmonia.

Se, por um lado, essas características, ora sociológicas, ora antropológicas, opõem esses dois grupos em espectros para lá de opostos, por outro, elas coexistem numa mesma faixa de território: é verdade que em margens opostas de um mesmo rio, chamado Congo. À margem direita, quem manda são os chipanzés e sua intrínseca competição por recursos e sobrevivência. Opostamente, à margem esquerda, quem coabita  são os bonobos, os chimpanzés pigmeus, que ,diferentemente dos seus irmãos, utilizam métodos mais amistosos para sobrevivência. E ambos carregam uma similaridade: a proximidade genética em termos de espécie tanto entre eles como para nós, os humanos.

Esses dois universos, tão “distintos” e tão próximos de nós, foram apartados um do outro , ao longo dos anos, pela força da vazão do Congo que, através das cheias, delimitou os dois grupos em seus devidos territórios. O intercâmbio entre eles é praticamente inexistente e se dá, talvez, apenas por resquícios visuais e sonoros. Assim, como num laboratório experimental ao ar livre, coexistem, à direita, os chimpanzés e, à esquerda, os bonobos.

Mas o que realmente os diferencia é a forma como cada qual reage frente às adversidades e normalidades da vida. A título de exemplo, quando um clã de chimpanzés se vê ameaçado diante da iminente invasão do seu território por outro clã rival, se utilizam da violência para a defesa e assim transcorrem as famosas guerras dos chimpanzés. Já os bonobos, diante da mesma ameaça, a perda do território, usam outro estratagema,: o sexo para apaziguar os nervos e as diferenças e, posteriormente, absorver os “rivais” em um mesmo clã.

Há muito o que extrair das lições à “esquerda” ou à “direita” das margens, pois não podemos nos furtar da competição ou mesmo da cooperação para a evolução da nossa espécie. No entanto, talvez, o melhor exercício a partir disso, seja entender os meandros do rio da onde retiramos a água para a vida.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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