A escola e a saúde mental de pessoas trans

29/01/2020
Posted in Colunistas
29/01/2020 Fernando Baptista

Hoje (29/01) é o dia Nacional da Visibilidade Trans, por isso o convido a adentrar no universo escolar dos transgêneros.

Você já parou para pensar como é para uma pessoa trans estar na escola?
A escola é o segundo grupo social onde as crianças são inseridas. Após o contato com a família, elas serão apresentadas a um universo totalmente plural. Esse processo de socialização é bastante importante para que a criança possa compreender que existem vários universos a sua espera. Na medida em que elas entram em contato com crianças de outras famílias, culturas, religiões e etnias, vão se desenvolvendo e compreendendo este mundo tão diverso. Esse momento é crucial para ajudá-las a respeitar e conviver com as diferenças.
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês descreve a importância do brincar e o quanto está é a melhor forma que a criança encontra de viver a realidade. E de acordo com Friedrich Nietzche “O homem chega à sua maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara uma brincadeira.” Ou seja, brincar é coisa séria.
Mas, imagine o seguinte cenário: A professora de educação infantil diz que hoje é o dia do brinquedo e que as crianças podem trazer de casa o que quiserem. E então o Pedrinho (nome fictício) traz uma boneca. E agora?
Pois bem. O convido a uma reflexão:
Quantos Professores de Educação Infantil homens você conhece?
Quantas engenheiras mulheres você conhece?
Por que o cuidado e o afeto são femininos, já a lógica e a racionalidade são masculinas?
E voltando ao exemplo anterior: Por que o Pedrinho não pode brincar de boneca?
Nós vivemos em uma sociedade onde somos desde crianças “doutrinados” a dividir o mundo em dois (masculino e feminino/brancos e negros/heteros e homossexuais/inteligentes e “burros”). Andrew Solomon, sociólogo inglês, em seu livro Longe da Árvore diz que a cultura ocidental aprecia essa dualidade e que qualquer expressão que fuja dessa binaridade é uma ameaça à ordem social. Parafraseando Solomon: Qualquer expressão que fuja dessa binaridade é uma ameaça a “família tradicional brasileira”.
As pessoas trans representam uma “ameaça” a esse padrão normativo em que nossa sociedade nos coloca desde criança, pois elas rompem com os padrões preestabelecidos de gênero.
E a escola desde a infância contribui para a invisibilidade destas crianças que querem exercer o seu direito de ser através da brincadeira. E na adolescência, a escola continua a torná-las invisíveis quando as impedem de usar o banheiro, por exemplo.
Em estudo realizado pela Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (ABLGBT), divulgado em dezembro de 2016, mostra que 73% dos estudantes que não se declaram heterossexuais no Brasil já foram agredidos verbalmente na escola. Já as agressões físicas ocorreram com um a cada quatro desses alunos. Dos 1.016 jovens ouvidos na pesquisa, 55% afirmaram ter ouvido, ao longo do ano anterior, comentários negativos especificamente a respeito de pessoas trans no ambiente escolar, e 45% disseram que já se sentiram inseguros devido à sua identidade/expressão de gênero.
Qualquer pessoa que não corresponda a esse ideal heteronormativo é excluído, rechaçado e marginalizado. É tirado dessas pessoas o direito de aprender, de socializar, de frequentar uma escola e até mesmo de existir, pois de acordo com as estatísticas a expectativa de vida de uma mulher trans é de 35 anos.
A escola precisa ser um ambiente que acolhe todos, todas e todxs. Afinal, a escola é uma importante promotora de saúde mental.
Neste dia da visibilidade trans, lhes convido para uma reflexão:
A sua escola, aquela onde você estudou, era um ambiente que acolhia as diferenças?

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Fernando Baptista

Reinventor CORE. Terapeuta de Família e de Casal. Sexólogo e Mestre na Área de Saúde Mental pela UNIFESP. Mestre da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).www.terapeutafernandobaptista.com.br
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