O Verão do Tigre

22/01/2020
Posted in Colunistas
22/01/2020 Guilherme Romano

Sim, mais um verão pede passagem, mas esse, se comparado aos demais, traz algo diferente consigo. Ele não é o verão do sal com suas festas nem mesmo o do mar aberto com suas infindáveis agitações. Esse, na contramão daqueles, é doce e, de alguma forma, até mais suave, pois carrega dentro de si a brisa da temperança no ar.
Mas antes de atingir tal maturidade, para desvencilhar-se dos demais, ele começou com uma ruptura, um desvio de rota. Essa quebra de ritmo, de fato, só pôde ser assimilada posteriormente após algumas reflexões e indagações refletidas na atual forma e atitude de como venho encarando a vida e os dias. Tudo isso começou à beira de um velho rio.
Rio esse que dilacera o olhar acelerado com o vai e vem das suas marés e que, num segundo instante, se revela incomum e, de certa forma, extraordinário. Suas águas circunscrevem não apenas as belas paisagens mas toda uma cidade. Ali, não existem carros, não há ruas ou avenidas, apenas o rio e seus afluentes definem a rota e o cotidiano. O pão de toda manhã se entrega de barco, assim como os outros víveres que vão do supermercado à farmácia. Se quiser voltar à “civilização” basta embarcar no vaporetto local e boa sorte. A vida lacustre de lá transcorre numa velocidade ímpar, vagarosa e, de certa forma, agradável. Tudo tem seu tempo, a sua medida certa, não há brevidades apenas o ritmo natural das coisas.
Nesse mergulho doce nas curvas do Delta do Tigre, através dessa simples constatação, chega-se à uma conclusão: essa máxima do tempo das coisas é um tesouro infalível para as nossas vidas. Uma regra de ouro que, infelizmente, ao longo dos últimos anos, vem perdendo cada vez mais espaço entre nós. Tentamos, sem sucesso e a todo instante, dobrá-la, incutindo o aceleramento do tempo em nossas vidas e, consequentemente, a celeridade de tudo que nos cerca. Vivemos assim, inconscientemente, na penúria da angústia, na constância do limite.
Diante dessa limitação na qual empreendemos a vida somada à “ignorância” factual do tempo das coisas, não existe espaço ou tempo se preferir, para o acaso, para a surpresa, ou mesmo para o fortuito do lúdico atuar perante nós. Cedemos, de mão beijada, esse território sagrado para a angústia e, até, em alguns casos, para a tristeza ou a depressão atuarem. Se recuperássemos a fé e o entendimento de que todas as coisas têm seu devido tempo, dissiparíamos os vultos dessa angústia e, de certa forma recuperaríamos o espaço para a operação do lúdico e do essencial dentro de nossas vidas.
O Tigre, de certa maneira, detém esse poder mágico de nos desconectar do fútil para nos reatar ao real necessário, ao simples e ao que realmente importa: amigos, surpresas e família. Isso se deve, em muito, a alguns aspectos locais como sua paisagem, pela qual não desfilam casas e sim jardins. Suas lindas praias, pequenas por sinal, são ideais para os banhos de rio. Seu barquinho de pão navega sem pressa por suas águas, daí, talvez, a temperança desses meus dias atuais. Mas, sua esperteza, com certeza, vem do seu nome, que resguarda esse pequeno segredo de paz, pois apenas onças e jaguatiricas no passado andavam por lá.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
× Precisa de ajuda?