A sombra do moai

15/01/2020
Posted in Colunistas
15/01/2020 Guilherme Romano

Hoje alvo dos pacotes turísticos, muito se comenta sobre a Ilha de Páscoa. Exaltam suas belezas entre as praias paradisíacas e os mistérios dos moais, mas a ilha também guarda um outro recorte, um passado um tanto sombrio de sequestros, escravidão, genocídios e muita luta para a superação desse quadro para a sua atual imagem cartão postal.

Distando cerca de 3600 quilômetros da costa da América do Sul, essa ilha vulcânica em formato triangular foi descoberta ao acaso em 1722 pelo desbravador holandês Jacob Roggeveen. Àquela época, seus cento e setenta quilômetros quadrados abrigavam uma civilização já em declínio, vitimada pelo seu próprio ápice. Anos antes, uma superpopulação de quinze mil indivíduos entrou em colapso devido à falta de alimentos que culminou em guerras entre as tribos locais pela primazia do alimento e plantio.

Diferentemente de outras ilhas do Pacífico, especificamente as da Polinésia, a Ilha de Páscoa tem uma temperatura mais fria; suas águas e ventos selvagens dificultam tanto o plantio como o surgimento de corais que inibem os peixes a se aventurarem pela sua costa. Diante disso, a vida ali nunca foi fácil e o navegador holandês pouco encontrou para a exploração comercial.

Todo esse cenário de isolamento mudou radicalmente com a emancipação dos países latino-americanos ao longo do século dezenove. Os novos estados buscavam riquezas entre outras matrizes econômicas para sustentação das suas independências. Uma delas era a extração de guano, que necessitava a todo custo de mão obra farta para a sua extração. Olhando para o oeste, os “criollos” peruanos enxergaram na frágil ilha um alvo fácil para o desnatamento da sua nova e rica indústria de exploração.

Navios e mais navios escravocratas partiam da costa peruana e aportaram em Rapa Nui, pelo ano de 1862. De lá sacaram mais de mil e seiscentas vidas para trabalhar nas suas remotas ilhas costeiras. Sob o sol insinuante do Pacífico eram extraídas toneladas de guano para a fertilização das “plantations” ao redor do mundo. A desnutrição e, principalmente, a histoplasmose dilacerava, por outro lado, as vidas dos escravos das ilhas e quase a totalidade delas se perdeu por ali, no vão do oceano. Dentre elas estava até o clã real dos rapanuis. Claro que o tal genocídio motivou a intervenção externa da França que, em conjunto com o Vaticano, fez frente a esses descalabros por parte dos peruanos.

Dessa intervenção foram resgatados alguns sobreviventes que voltaram à ilha em companhia de alguns missionários franceses. Essa reinserção forçada se revelou, tempos depois, de ordem catastrófica. Esse pequeno contingente introduziu pela primeira vez na ilha a mortandade da varíola. Em 1870, eram apenas quinhentos os sobreviventes entre os rapanuis.

Diante de tal calamidade, logo a ilha se transformou em uma excepcional oportunidade de negócio. Ao mesmo tempo, a porção insular possuía terras baratas em demasia e uma população frágil e reduzida. Após uma breve negociação, os jesuítas entregavam o arredamento ao explorador francês Jean Baptiste Dutrou Bornier, que barganhava um só reino seu sobre a terra. Lá, introduziu a criação de ovelhas e encabeçou um projeto de terror, escravidão e tirania, claro que ao seu favor. Ao fim de 1877, sobravam apenas uma centena de vidas escravas naquela ilha.

Já em 1888, o então presidente Balmaceda, após a vitória da Guerra do Pacífico diante do Peru e da Bolívia, firmava um novo acordo com os jesuítas e a empresa exploradora local para a compra da ilha e, assim anexou esse pequeno território ao estado chileno. Era um alívio ao locais, que se livravam da exploração do arrendamento francês de outrora.

Contudo, esse novo ânimo durou muito pouco:  os entusiasmados colonizadores chilenos que chegaram à ilha, foram sucumbindo diante das dificuldades locais impostas tanto pelo isolamento como pela própria natureza do local. Abandonaram a ilha e retrocederam de volta ao continente. Rapanui era abandonada e ao mesmo tempo destinada ao atroz arrendamento francês. Enrique Merlet, em 1896, fundou a Companhia Exploradora da Ilha de Páscoa, reintroduzindo a cultura da ovelha. Logo a ovelha era mais importante do que qualquer vida humana naquelas bandas do Pacífico. Essa nova roupagem de poder e desmando por parte da recém fundada CEDIP chegou ao ponto de confinar os habitantes da ilha em um gueto murado na sua própria terra, a hoje cidade de Hanga Roa. Homens eram açoitados e mulheres estupradas pelos guardas e gerentes da famigerada companhia, transformando o paraíso em inferno uma vez mais.

Não tardou muito aos rapanuis se lançarem contra esse regime, porém aquelas contendas sempre acabavam com a chegada da Armada Chilena que restabelecia a paz em nome do capital. Enquanto as ovelhas pastavam livremente pela ilha, o sistema de ódio impera no gueto dos homens encarcerados. Já cansado das revoltas locais, em 1903, o governo chileno impôs a militarização da ilha para sustentação das atividades da CEDIP. Em 1911 um surto de lepra deu baliza para a efetivação de um toque de recolher para os locais.

Mártires surgiram no horizonte, como é o caso de María Angata que, em 1914, conseguiu tomar o controle da ilha por dois breves meses, subjugando o poderio da CEDIP. Mas, mais uma vez, a Armada saiu de Valparaíso em socorro aos interesses corporativos,  trucidando os rebeldes. Tal condição infra-humana só findou em 1965, com a última das insurreições, obra de Alfonso Rapu. O último mártir não só pôs fim à crueldade desse regime como também inaugurou a primavera dos direitos rapanuis, deu-lhes o mínimo de dignidade através da terra, da nacionalidade chilena e liberdades de voto e circulação pelo país.

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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