As voltas do Zonda

Dezembro 18, 2019
Posted in Colunistas
Dezembro 18, 2019 Guilherme Romano

O Zonda nasce do azul do pacífico sul, sob as influências da umidade e do frio. Instável, rompe pela costa chilena alimentando os bosques do Valle Central. Ganha primeiramente a altitude da pré cordilheira para depois se transformar em entidade no teto dos Andes. Dali, forja sua identidade através das baixas temperaturas e, da escassez do ar, perde por completo a salina água que molda seu caráter seco e selvagem. Já na descendente oriental da Cordilheira, ruma à Argentina e ganha a sabedoria e os trejeitos da velocidade; se faz do silêncio do ciclone, o seu famoso caráter inimigo.

Diz a lenda, que um valente guerreiro huarpe de nome Gilanco, de incomparável destreza com a flecha e o arco, tinha todo o colorido da Cordilheira ao seu dispor. Flechava sem dó qualquer forma de vida que encontrasse em seu caminho. Não tinha piedade e não media esforços em atentar contra qualquer vivente. Tamanha crueldade despertou, tanto em Yastay, divindade das montanhas e dos animais, como na onipresente Pachamama, raiva e desgosto que, cansadas da selvageria, deram-lhe apenas um ultimato:

– Cesse sua violência de sangue, mero mortal!

Tempos depois, Gilanco voltou com sua carga violenta novamente contra os indefesos animais e suscitou a ira final de Yastay e da Pachamama. Como castigo, a toda poderosa Mãe Terra confiscou suas beligerantes flechas vacilantes pela simples força do ar, para depois envolver o arqueiro num turbilhão de pó que logo se transformou num poderoso redemoinho. Não se sabe o fim do guerreiro; a única evidência desse embate foi o surgimento de um vento atroz, que faz do calor combinado com a velocidade sua força motriz.

Depois do deserto eterno, o Zonda, esse vento mordaz, continua sua jornada pelos verdes dos pampas. Ali, morre, às vezes, no conservadorismo das estâncias, ou ressuscita e muda de nome para Pampero. Mesmo diante da morte ou pelo brilho da eternidade, seu signo continua o mesmo: a quebra da normalidade. Em vida, ziguezagueia pelos latifúndios sem fim e, algumas vezes, encontra seu prumo no casamento com os bons ares da Capital. Dessa união, época sim, época não, refunda todo o ideário da Nação.

Em outubro passado, o Zonda completou, enfim, mais uma das suas jornadas históricas. Surgiu, mais uma vez, da longínqua frieza do Pacífico Sul, emergiu do deserto e unificou todas as Províncias para, a partir da escassez dos direitos, encontrar sua morada final às margens do Rio da Plata. Especificamente, na casa das casas, a Casa Rosada. Mais uma vez, o povo decidia, para o seu bem, um novo rumo, um novo presidente: Alberto Fernández.

Essa mudança de viés político colocou fim ao Macrismo, fantasma político que junto ao Piñerismo reinaugurou o neoliberalismo no cone sul. Diferentemente dos chilenos, os argentinos puderam, a partir da liberdade das urnas, mudar o seu destino. Mas, a mim, particularmente, essa mudança só veio à tona quando vi e ouvi o juramento inaugural de Fernández perante o Congresso Argentino.

Diante dos diversos pontos abordados na abertura dos trabalhos democráticos, revi de relance a Perón, ouvi, mais uma vez, Nestor K. e entendi, pela primeira vez, a inteligência e a sutileza de Fernández que, diferente destes outros, detém a habilidade de tecer pelo centro, o necessário equilíbrio para todo um país. Não deixou de atacar as feridas e as suas mazelas, mas, cirurgicamente, as suturou com unidade, clarividência e as necessárias parcimônia e diplomacia.

O exemplo maior se deu na seara econômica, seu mérito, ou melhor, seu remédio. Foi o que mais me chamou a atenção.  Conclamou que, para atacar a dívida externa se faz necessário, primeiro, o crescimento econômico da nação. Em outras palavras, reequilíbrio macroeconômico com resultados práticos antes do pagamento dos juros e do principal da mesma. Para tal missão, trouxe de Columbia seu ministro de finanças, Martin Guzmán, para desempenhar tal missão. E o mesmo reiterou: antes as políticas sociais do que o aprisionamento asfixiante dos juros do FMI.

Continuou e construiu a partir das suas palavras pontes de diálogo com os demais argentinos que não aderiram, inicialmente, ao seu projeto, convidando-os para um pacto de uma só Nação. Abriu os flancos do seu governo para uma nova forma de justiça, a qual nunca será refém dos dissabores políticos que negligenciam a equidade entre todos. Não deixou de suscitar a polêmica questão das Malvinas, propondo o estratagema da diplomacia para combater o colonialismo inglês.

Mas, o principal do seu discurso foi que, daquele palanque, uniu as diferentes forças sociais argentinas em torno de si. Realizou ali um conclave, único e indissolúvel, pelo qual, alto e bom som, disse à nação que nenhum dos argentinos ficará para trás no esforço institucional de tirar todo o país da miséria. E mais, convidou a todos esses para um melhor futuro de oportunidades, liberdade e igualdade.

Torço para que a teoria do Zonda crie esses frutos de progresso e não morra em vazias palavras de um discurso. E que a partir desse mesmo progresso, o efeito “orloff”, o qual dizia “eu sou você, amanhã”, volte mais uma vez a acontecer. Pois, como bem disse o poeta, enquanto houver gelo, há de haver esperança para o nosso sertão.

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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