A Dinastia de Weimar

Dezembro 10, 2019
Posted in Colunistas
Dezembro 10, 2019 Guilherme Romano

Eles não trazem cetros, usam coroas ou insígnias. Livres, escapam dos nossos rótulos e pelo amor incondicional refutam todas as nossas máscaras e os vazios dos papéis das sociedades. É o que se tem de melhor nos quesitos amor, afeto, emoção e instinto.

Meu caminho se cruzou com o dele de forma tão abrupta e furtiva que mesmo cavando a fundo nas minhas memórias, ele, o velho Doctor, já estava lá. Doc, para os mais íntimos, tinha ares altivos, sua sabedoria era transmitida pela profundidade dos verdes olhos. Ora atacava como um corajoso cacique, a fim de nos proteger contra o vazio do mal, ora posava como um sábio pajé detendo a cultura e o conhecimento.

Toda a propriedade era sua, do alto do vale era só o nosso carro apontar que ele vinha nos escoltar desde a porteira à casa da sede. Os latidos anunciavam o melhor dos fins de semana: piscina, sol, futebol, bicicleta, churrasco, pizza, trilhas, pipa e carpintaria. O bom guerreiro nunca deixou de participar de cada uma dessas atividades. Talvez a mais marcante tenha sido a longa espera do Halley, aquele cometa que arremeteu.

 Mas a sua obra prima estava por vir: era a Amanda, a minha, a nossa cachorra. Do interior,  bem novinha rumou para a cidade e fincou raízes no nosso jardim. Trazia, também, como um bom Weimaraner, aquela profundidade verde dos olhos do pai, mas seu charme era outro: o longo rabo que não deixamos podar.

Nossa irmã mais nova tinha seu canil, mas preferia o capacho da entrada da casa para dormir. Guardava ali todos e os seus sonhos. Já nas manhãs, lembro-me da sua tigela vermelha, na qual mergulhava nos torrões de ração. Saciada, de guia na coleira, nos acompanhava até os portões da escola. Ao meio dia, pontualmente, ali nos aguardava para o caminho de volta.

Nas tardes, era ela quem reinava, se envolvia nas brincadeiras, pega-pegas, ora era ladra, ora era polícia. Sua disposição ia até onde quiséssemos, nunca se entregava. Não era bem-vinda dentro de casa, mas quando rompia pela porta, logo ganhava as escadas da sala de televisão e lá se esbaldava nos sofás e tapetes.

Não tardou muito para Amanda ganhar concorrência e todas fracassaram. Primeiro foi uma preguiça com a qual travou combates titânicos. Eram de um lado unhadas e, de outro, mordidas. A preguiça seguiu seu caminho e Amanda prosperou. Mas vieram os porquinhos da índia, um hamster e alguns pintinhos que também sucumbiram pelo tempo. Ninguém alcançou a sua hegemonia.

Como caçadora, Amanda não tinha alvos específicos. Nos presenteava, às vezes, com passarinhos, grandes ratazanas e até alguns gatos. Mas, talvez, a maior das suas conquistas foi um galo de rinha, prejuízo certo e rasteiro.

Seguindo em frente, em um outono gelado, lá dos anos oitenta, Amanda recebeu a visita de um ”cavalheiro”. Nós, curiosas crianças, espreitávamos cada um dos movimentos do casal para depois de alguns meses, vermos surgir do canil, uma ninhada de oito filhotes, o futuro da Dinastia de Weimar.

Um último detalhe curioso acerca da Amanda é a inspiração para o seu nome. Lembro-me vagamente de uma garotinha de cabelo negros que brincou conosco por todo um fim de semana. Sua alegria conjugada com a inocência, talvez, de um primeiro amor não correspondido lhe rendeu essa bela e pequena homenagem canina.

 

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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