O afeto vai à escola

Dezembro 6, 2019
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Dezembro 6, 2019 Raquel Del Monde

“Eu sou um carrasco com meus alunos” – me disse, sorrindo, um professor que conheci na semana passada. Ele não estava sendo sarcástico, nem demonstrava qualquer desgosto. Ao contrário, havia um tom de orgulho na sua voz enquanto discorria sobre como era implacável em sala de aula.

Na hora me lembrei de um professor dos tempos do ginásio, que já chegou no primeiro dia de aula criando um clima de terror para os alunos. Hoje em dia fico pensando em que momento de suas vidas – e de que maneira – esses e outros professores foram convencidos de que austeridade e intransigência são qualidades desejáveis para ensinar. Quando ouço aquelas frases “Ninguém consegue tirar nota com tal Fulano ou Fulana”, eu já penso que o profissional em questão está falhando. Pode ter domínio sobre o conteúdo, mas não sabe apresentá-lo aos alunos ou não entendeu seu papel na condução das aulas.

Ao contrário, sabem quem são os professores que marcam nossas vidas, aqueles que são lembrados com carinho e admiração, que nos impulsionam a buscar o melhor de nós mesmos? Sim, são aqueles por quem temos afeto. Isso não quer dizer que não sejam profissionais rigorosos. Mas, dentro do perfil e da personalidade de cada um, são pessoas que cativam, inspiram e despertam a vontade de ir além.

A neurociência respalda essa constatação. Nosso “centro de emoções” influencia as funções de atenção e memória. Assimilamos e armazenamos melhor as informações quando elas carregam conotações emocionais positivas. O contrário também acontece: podemos criar aversão àquilo que traz medo e raiva.

Não há, obviamente, um manual para se tornar um desses professores inesquecíveis. Mas todos os profissionais que trabalham diretamente com seres humanos precisam exercitar a empatia. Tentar colocar-se no lugar do outro e abraçar a diversidade.

Toda ameaça de falha ou humilhação afeta negativamente o desempenho dos alunos. Portanto, reconhecer as dificuldades de cada um e oferecer suporte adequado são atitudes essenciais. Por isso a necessidade de mais e mais capacitação. “Pegadinhas” e tarefas desnecessariamente penosas não são “estímulos” para o crescimento de ninguém.

Devemos ampliar as possibilidades de sucesso de cada aluno. Valorizar seus pontos fortes, dar reforços positivos e construtivos imediatos.Validar sentimentos e opiniões. Oferecer opções para execução de atividades e avaliações, com múltiplos formatos, priorizando o conteúdo. É importante compartilhar experiências bem sucedidas, montar roteiros em conjunto, acolher as falhas e estimular os recomeços.

A escola é o primeiro ambiente de experiências coletivas das crianças e tem um papel fundamental no seu desenvolvimento social. Portanto, é o espaço que mais tem impacto no aprendizado para a convivência, o respeito ao outro, o reconhecimento da diversidade de talentos, a cooperação e o trabalho em equipe. Só seremos bem sucedidos nesta tarefa com afeto e bons modelos.

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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