A Marcha do Sal

04/12/2019
Posted in Colunistas
04/12/2019 Guilherme Romano

Diante de todas as proibições, perseguições e as atrocidades impostas pela Grã-Bretanha durante o regime colonial, ninguém obteve papel tão crucial quanto Mahatma Gandhi nas lutas de independência. Fosse pelo exemplo platônico ou mesmo partícipe, sua figura estava lá para balizar os esforços pela liberdade e pela cidadania.

Sua jornada começa na Rebelião de Bambata, na África do Sul, e se espalha como um maremoto por todo o subcontinente indiano. Talvez, a maior dessas ondas foi a famosa Marcha do Sal, quando Gandhi deixou o Mosteiro de Sabarmati Ashram em direção à longínqua Dandi, uma pequena cidade litorânea da mesma Índia,  em março de 1930.

Ao longo de mais ou menos quatrocentos quilômetros, rumaram, Gandhi e seus correligionários, de vila em vila, de cidade em cidade. Arrebatavam pelo caminho corpos e mentes na constância da verdade da Satyagraha.

Foram vinte cinco longos dias até chegarem às águas salgadas de Dandi. E, da beira mar, após o banho sagrado dos hindus, Gandhi extrai, com um simples ato, um punhado de sal. Quebrava ali a lei do sal que sujeitava seus semelhantes, os colonizados, a consumirem apenas os produtos manufaturados dos algozes ingleses.

O ato em si não escapou dos impérios da lei e não foi em vão. Governantes imediatamente condenaram à prisão o pacifista. Milhares de indianos seguiram marcha em direção à Bombaim, o coração da colônia. Buscavam, eles também, seus punhados de sal dos estoques da capital. Diante dos portões da manufatura, soldados esperavam essa multidão. E ali, um a um, coluna a coluna, os satygrahies foram sendo derrubados e massacrados a golpes de cassetete.

Esses guerreiros do intelecto atuavam dentro da sua estratégia inicial. Se colocavam no confronto direto contra o mal que os afligia. Porém, ao invés de adagas, utilizavam a disciplina da não violência. E, através desse ato de resistência pacífica, não só conseguiam desarmar o desafio mas terminavam convertendo seus adversários à causa.

A história de Gandhi e da sua pacífica “guerra” possui diversos outros capítulos que vão desde greves gerais a greves de fome, tem seu fim na sua trágica morte logo após a conquista da independência. Ao longo dessas páginas, percebe-se que todos os seus esforços foram direcionados a liberdade e a obtenção da cidadania por parte dos indianos.

A ferramenta da desobediência civil, ordeira e pacífica, utilizada de forma constante por meio da Satyagraha se mostrou, ao fim, um método muito eficaz contra aqueles que usurpavam da população tanto o seu destino como os seus direitos. Anos depois, a estratégia de Gandhi indicou os caminhos da resistência de outros mártires como Mandela e Luther King.

Uma das principais virtudes da Satyagraha é ter o poder de colocar em jugo diferentes autoridades ou instâncias de governo pela perseverança da não violência. De certa forma, ela opera no âmbito coletivo impondo derrotas de cunho moral ao inimigo, sufocando-o. Ao mesmo tempo, pelo tempo, no médio e longo prazo, desperta também no oponente a percepção da causa em questão.

Talvez seja esse o caminho para as novas jornadas que já surgem no nosso horizonte. Táticas como o boicote, os ativismos físico ou digital, o pacifismo, os atos deliberadamente simbólicos, a defesa dos direitos humanos como também os remédios constitucionais são armas tão ou mais poderosas que o vandalismo. Por fim, as lições de Gandhi nunca foram ou serão em vão.

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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