Mudança de ciclo

01/12/2019
Posted in Colunistas
01/12/2019 Raquel Del Monde

Dá até um friozinho na barriga quando a criança neuroatípica chega ao Fundamental II. Numa boa parte dos casos, já foi bem trabalhoso conseguir os suportes para favorecer a aprendizagem da criança nos primeiros anos, e aí vem a sensação de ter que começar do zero novamente.

Não é à toa essa preocupação: há mudanças significativas em toda a dinâmica escolar no novo ciclo. Além disso, os professores geralmente têm formação apenas na disciplina que ensinam, o que pode dificultar a compreensão acerca de conceitos da educação inclusiva.

A definição dos suportes após o sexto ano segue a mesma lógica de sempre: é preciso conhecer o perfil de habilidades e dificuldades do aluno. Logo, todas as estratégias abordadas nos textos anteriores continuam válidas, com alguns ajustes para as novas demandas, de acordo com as especificidades das novas disciplinas.

Vamos aos pontos que costumam ser mais importantes:

  • É imprescindível que todos os professores sejam comunicados a respeito das necessidades do aluno desde o início. O ideal, é claro, seria que recebessem informações mais detalhadas das ações estabelecidas até aquele momento e que também tivessem acesso a um programa de capacitação. Recomenda-se que seja escolhido um “mentor” para ser a referência do aluno em caso de dificuldades ou conflitos (pode ser um dos professores ou alguém da equipe gestora). Saber a quem recorrer em momentos difíceis faz toda diferença do mundo.
  • Os professores podem apresentar-se para o aluno de forma individual. Em alguns casos, pode ser fornecido uma folha contendo nome e foto do professor de cada disciplina.
  • No início de cada aula, dar uma breve descrição das atividades do dia. Usar sempre linguagem clara e direta, deixando explícito o que se espera do aluno.
  • Utilizar recursos visuais e audiovisuais na explicação de conceitos, sempre que possível. Aulas práticas, demonstrações e materiais concretos podem ser muito valiosos. Exemplo: reproduzir fórmulas químicas utilizando bolas de isopor de diferentes tamanhos e cores (representando os diversos elementos) e palitos de madeira (representando as ligações).
  • Enunciados e perguntas de atividades e avaliações devem ser curtos, simples e objetivos. O uso de charges e outras alegorias com linguagem figurada pode dificultar muito o entendimento do aluno. Mas atenção: linguagem simples não significa linguagem infantilizada!
  • Utilizar temas de interesse do aluno ou ligados ao seu cotidiano: isso o ajuda a estabelecer relações e assimilar as novas informações.
  • Na área de linguagens e humanas, pode ser interessante permitir a leitura de resumos e/ou a utilização de áudio-books no lugar de livros paradidáticos completos ou selecionar textos de forma individual, de acordo com as habilidades observadas. Trabalhar o reconhecimento de informações em um texto curto com a possibilidade de grifar ou circular a resposta correta. Possibilitar a elaboração de textos curtos, mas sempre com estímulo gradual e pistas/dicas/roteiro para uma escrita mais elaborada. Evitar introduções longas para propostas de redação e inserir temas de relevância para o aluno. Utilizar modelos de estrutura morfológica e gramatical nas línguas estrangeiras.
  • Oferecer roteiros para a resolução de exercícios de matemática, química e física. Priorizar conceitos de acordo com sua utilidade na vida prática, como sistema monetário, unidades de medida (volume, massa, comprimento), etc.
  • Nas provas, pode ser necessário reduzir o número de questões. Evitar solicitar mais de uma informação em cada enunciado. Procurar utilizar as mesmas imagens ou modelos da aula, como apoio visual. Evitar “pegadinhas”. Considerar a necessidade de realizar avaliações em ambiente separado, com maior tempo de execução, uso de questões de múltipla escolha, avaliações orais ou permissão de consulta a resumo feito pelo próprio aluno.

O estudante deve ser visto de acordo com as suas habilidades e não comparado com o restante da turma. Para tanto, é necessário o estabelecimento de objetivos de aprendizagem de forma individualizada.

Agradeço a colaboração da psicopedagoga Fabiana Burgos Garcia neste texto. A Fabiana é especialista em educação especial e TEA e trabalha comigo na clínica há anos. Além disso, é bacharel em ciências e química e mestre em Ensino e História de Ciências da Terra, com muita vivência de sala de aula.

 

 

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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