Ode a Olinda

26/11/2019
Posted in Colunistas
26/11/2019 Guilherme Romano

Quem, do alto-mar,  vê suas colinas,  tem a certeza de que seu nome não nasceu do simples vazio do vão. Sua beleza curvilínea destoa da sisudez retilínea do horizonte-fim. Seu nome confirma o poder da sua sedução de ser apenas Olinda. Agridoce, cabocla, ameríndia, reinou colônia, queimou flamenga e hoje, nos abraços de um grande encontro, dança seu carnaval.

Desde a paráfrase púrpura do manguebeat dista da antítese do Recife, sete longos quilômetros. Entre rios e overdrives, surgem suas impressionantes estruturas da lama. São os velhos caminhos do Pernambuco.

Seus bonecos longa manus nascem da irreverência dos velhos Tapuias. Desde o verde profundo ao Norte, ainda vertem na sua direção os temidos Tupis que ali ainda alicerceiam suas ocas de brisa e grosso sal. 

 Mas o maracatu dos arcos da íris é quem conquista o vértice da sua colina. A cana pelo bagaço dos amarelos engenhos te eleva ao terreiro mais alto da nova Lisboa do além-mar. Seus ambiciosos senhores ainda forjam chaves de ouro para cerrarem, de prata e marfim, as fechaduras dos seus mosteiros.

Desde as sacadas dos seus casarões, que guaritam a curva do Atlântico na epopeia da fé cega do poder em dor, se avista, desde a União Ibérica, o tendão de Aquiles do velho Império de Castilla. Recobra-se a cobiça sefardista mercantil pelo ouro branco.
Agora, os galeões e exércitos flamengos consolidam, desde a baixa da maré, a conquista da sua Sé e arde do sangue em brasa seu velho casario. Já advertia o Frei Antônio Rosa que dos seus pecados mundanos emergem os castigos como a retumbante queda do seu “i” que a transforma em Olanda. Surge dos arrecifes uma nova onda chamada de Brasil holandês, cantasse Nassau.

No Guararapes, resistem os bravos terra-tenentes. Elegem o estratagema das emboscadas e da estrela vermelha capitulam o anjo travesso, Calabar. Em quartos de membros, o traidor se reduz em raros estandartes que anunciam a volta da velha Lusitânia. 

No exílio desde as Anti ilhas, os derrotados se vingam pelo peso do florim. Mascavam, por fim, as arroubas do seu açúcar. Mascates febris cantam do marco zero a emancipação do Recife. Da decadência à falência, os fartos empréstimos de seus nobres senhores dilaceram a última das suas riquezas. Naufragam nas areias dos mangues, seus velhos engenhos amarelos. Reina, enfim, a burguesia dos novos tempos.

O bacalhau do batata das quartas-feiras de cinzas declama sua eternidade de recomeços. Pelo fervo do frevo, a multidão reserva do suor a última pétala do sal. Mais um ano, mais uma ilusão prospera a partir das suas ladeiras. E, como sempre, naquele momento, você ressuscita mais bela do que nunca na sua antologia de uma frase só – óh, linda, óh, linda, a nossa velha vila. Vida a Olinda.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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