A vida escolar dos superdotados

23/11/2019
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23/11/2019 Raquel Del Monde

A figura do gênio solitário e excêntrico logo desponta no imaginário coletivo quando se fala em superdotação. Porém isso não corresponde à realidade – e nem mesmo os termos são sinônimos: genialidade reflete a capacidade de criar algo completamente novo para a sociedade em determinada época. Já superdotação/altas habilidades (SD/AH) refere-se ao desempenho elevado em relação aos pares – de forma isolada ou combinada – em uma ou mais das seguintes áreas: conhecimento acadêmico geral ou específico, capacidade psicomotora, talento artístico, pensamento criativo e liderança. Cerca de 5% da população apresenta SD/AH. Mas, não surpreendentemente, no nosso meio,  a identificação desses talentos é bastante limitada pela escassez de serviços habilitados para isso e a maior parte deles não tem o direcionamento adequado para favorecer o desenvolvimento das suas habilidades.

No texto de hoje, vamos falar da superdotação do tipo acadêmica. Por ser uma condição inata, de origem genética, a criança superdotada dá sinais de uma capacidade mental significativamente acima da média, desde muito novinha. Geralmente é uma criança curiosa, questionadora, com interesses fora do comum, com extraordinária facilidade para assimilar conhecimentos e dominar habilidades. Também costuma demonstrar uma memória notável, senso crítico, independência e autodidatismo.

O MEC dispõe que o público alvo da Educação Especial é constituído pelos alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e com SD/AH. No casos destes últimos, as dificuldades institucionais já conhecidas são agravadas pela ideia – perpetuada pelo senso comum –  de que pessoas com esta condição são autossuficientes e não possuem dificuldades na aprendizagem. Apesar das recomendações oficiais do Conselho Nacional de Educação para oferecimento de atividades de enriquecimento curricular e mesmo classes de aceleração, isso pouco acontece. Na prática, vemos um “ranço” generalizado em relação a esses alunos. Da parte dos professores, que já são tão cobrados em relação ao atendimento aos que possuem “dificuldades reais” de aprendizagem e muitas vezes não entendem sua função junto a crianças que “aprendem sozinhas”. Da parte dos outros alunos, que podem se ressentir do colega “privilegiado”. De fato, as diferenças no repertório de conhecimento e nos interesses costumam afetar os relacionamentos com os pares, ocasionando problemas de socialização e comportamento. Algumas vezes, os pais da criança – e ela própria, por tabela – adotam atitudes arrogantes que só contribuem para afastar mais ainda as outras pessoas.

Ao contrário do que se pensa, a condição de superdotado não é garantia de sucesso. Na infância, a facilidade em aprender e as aptidões demonstradas costumam encantar os adultos. Não raramente, a criança é instada a “exibir” suas habilidades diante de plateias variadas e pode mesmo virar uma atração em alguns ambientes. Ao longo dos anos, o florescer dessas habilidades depende de um ambiente favorecedor. A vida escolar pode ser uma experiência bem solitária. Os interesses e o ritmo de aprendizagem diferem muito dos outros alunos, dando lugar ao tédio e a desmotivação – quando não a um comportamento francamente disruptivo. É extremamente frustrante para o aluno superdotado permanecer várias horas ao dia sendo obrigado a executar tarefas em desacordo com suas habilidades e pelas quais não tem o menor interesse. No livro “Longe da árvore”, do Andrew Solomon, vemos uma passagem em que o garoto com altas habilidades pergunta à mãe: “Posso ficar em casa pra aprender um pouco?”. Um triste retrato da realidade Na vida adulta, pesquisas mostram que os níveis de realização pessoal e satisfação não excede o da população geral.

Para apimentar ainda mais o assunto, temos a questão da Dupla Excepcionalidade (DE), termo utilizado quando as pessoas que apresentam SD/AH também possuem déficits em outras funções (como Transtornos de Aprendizagem, TDAH, autismo). Não temos estimativas da prevalência da DE, mas tudo leva a crer que a ocorrência da superdotação e altas habilidades seja maior no espectro do autismo que na população geral. Nos casos de DE além de oferecer um ambiente pedagógico motivador e capaz de desenvolver as aptidões e talentos identificados, há que se oferecer o suporte necessário para as dificuldades observadas (alterações sensoriais, déficits de comunicação e diferenças no processamento de informações). Portanto, é importante ter conhecimento sobre as características de cada uma das condições que compõem a Dupla Excepcionalidade para permitir a compreensão dos comportamentos e das necessidades exibidos pelo aluno. Duplamente desafiador, mas duplamente recompensador.

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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