Carta aberta aos Hasketts

20/11/2019
Posted in Colunistas
20/11/2019 Guilherme Romano

Nunca foi fácil escrever e é ainda mais difícil quando escrevemos por uma singela carta. Essa dificuldade em escrever a pessoas próximas, nasce, em parte, da emoção em questão que ao mesmo tempo que nos impulsa para ação, também nos aflige pela timidez.

O melhor remédio para vencer isso, creio, é ir por partes: partir do começo até que o pensamento e o impulso de se expressar decantem na melhor forma do texto.

Tudo começa em fevereiro de 1996. na distante Austrália do Sul, especificamente, na notável cidade de Adelaide. Lá, me recepcionavam num tórrido verão, um casal e seus oito filhos para uma nova jornada na minha vida. 

 

O voo, o frágil domínio do inglês e os diversos nomes regados pelo sotaque local, naquele primeiro contato, me nocauteavam. Tudo girava em torno de como eu me recomporia do jetlag para essa nova etapa da minha vida. Saímos em um comboio de dois carros em direção à minha nova casa, uma simpática residência ao estilo vitoriano localizada numa tranquila área nos arredores do centro da cidade.

 

A vida seguiu seu prumo durante os  meses seguintes.Nesse primeiro momento,  preferi a reclusão daquele novo núcleo familiar. A partir da integração, consegui dominar o idioma, peça chave para minha adaptação naquele distante lugar. Com isso, a vida escolar desabrochou, amizades e relações aconteceram e tudo ficou mais fácil para a continuidade do intercâmbio. Vieram as viagens, festas e a maioridade, tudo como um inesquecível sonho de verão, do começo ao fim.

 

Essas experiências inesquecíveis só se tornaram realidade, em primeiro lugar, pela sabedoria e pelo amor dos meus pais, que se esforçaram muito para me proporcionar esse momento tão especial. E digo, alto bom som, ter sido essa a melhor das oportunidades que eles puderam me oferecer. Qualquer esforço, nesse sentido, vale cada gota de suor.

 

Para ser justo, essa vivência tão enriquecedora também só pôde se tornar feliz realidade a partir da acolhida que tive na família dos Hasketts. Só a partir deles consegui efetivar essa tão importante experiência na minha vida. Aquele núcleo familiar propiciou coisas magníficas que brotaram e ainda brotam hoje em dia na minha vida. Coisas mais além do material ou das experiências momentâneas daquele período.

 

Para ser mais claro, posso cristalizar essa vivência em duas palavras: valores e comunidade. Na questão dos valores, pude, naquele lar, compreendê-los além da educação formal, pude vivenciá-los à    profusão.

 

Os exemplos são para os valores como a base é para o topo, a doação do tempo, do espaço, a amizade sincera, a confiança irrestrita, o amor e o carinho para com o próximo fazem com que esses valore se enraízem dentro de nós e a partir de nós se irradiem para o mundo à nossa volta.

 

A partir disso, se trabalhada, uma outra dimensão também floresce dentro de nós, as raízes do senso de comunidade. Como se pode imaginar, uma casa com oito crianças, desde bebês a adolescentes, mais dois adultos e um casal de cangurus nunca será terreno para amadores. Lá, sistematicamente, todos contribuíam para as diversas atividades do lar que iam desde a limpeza à alimentação do dia a dia. Desse trabalho, arraigado na comunidade familiar, desde as louças aos curries das quintas-feiras, descobríamos entre nós os meios da sociabilização que culminavam invariavelmente na diversão, a base para a real amizade entre nós. E isso,  de certa forma nos permite desfrutar até hoje, uma espécie união tão ímpar que é capaz de nos conectar até os dias de hoje apesar das distâncias transatlânticas.

 

Esse espírito comunitário lapidado tanto na amizade como no trabalho extrapolava também as paredes da casa e invadia os diversos outros setores daquela sociedade como a escola por exemplo. Para ficar só nesse exemplo, essa ferramenta tão poderosa foi capaz de, em menos de um ano, arrecadar fundos para que meninos jogassem polo aquático ou futebol em diferentes partes do mundo.

 

Quando enfim se vê além e se somam essas coisas, dos valores e da comunidade dentro de nós somos capazes de agradecer essas pessoas tão especiais em nossas vidas. Foram lições do passado que há algum tempo, já na vida adulta, se tornaram mantras que direcionam muitos como eu para o além de um futuro muito melhor.

 

Fica aqui meu eterno agradecimento a Jude, Peter, Amy, Tash, Bridget, Lucy, Hugh, Tim, Mark e Matthew pela linda acolhida de então e muito obrigado pelas ditas coisas.

E um até breve.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
× Precisa de ajuda?