A República de Canudos

14/11/2019
Posted in Colunistas
14/11/2019 Guilherme Romano

Em alguns dias, no próximo dia 15 de novembro, a República Federativa do Brasil completa seus cento e trinta anos de história. Entre avanços, retrocessos, carnavais e funerais, o lugar comum da República se consolida, cada vez mais entre nós, através da divisão dos poderes, o estado laico, os impérios da federação entre outros atributos.

A gênese da República se deu na Grécia antiga e, a partir dali se determinou seus limites e as suas ambições. A maior delas é seu sentido estrito, explícito na sua grafia, o conceito da coisa pública. Na verdade, o conceito reveste-se de um ideal a ser perseguido pelos povos a fim do regramento social e político, delimitando assim os Estados e as nações.

Por ser um ideal além da realidade da vida práticaeste conceito abstrato, ao longo da sua história, se caracterizou como vítima das lutas de classes e do jogo pelo poder. Basta ver o que se tem hoje na atualidade, os extremos espectrais da República Popular da China à República Federal da Alemanha.

No caso específico brasileiro, esse não fugiu à regra e foi decretado pela classe dominante das oligarquias que entre liberais e conservadores determinaram a bancarrota do Império. Ali, naquele momento, essas forças políticas ora antagônicas, moldaram o início da nossa República a fim de privilegiar seus interesses ao invés de seguir o ideário ateniense da coisa de todos. Nascia assim do Rio de Janeiro para o Brasil, a nossa República, em 1889.

Naquele mesmo período, num Brasil paralelo, mais profundo, uma outra empreitada digamos mais “popular” revolucionava as salmouras dos nossos sertões. Era a obra de homens e de mulheres que encarnavam em Antônio Maciel, o Antônio Conselheiro – um só nome, a República de Canudos.

Canudos era um arraial com mais ou menos vinte e cinco mil pessoas que da economia comunitária de roças e de bodes pelo zelo social se tornara autossustentável frente às mazelas da caatinga, dava, enfim, cabo ao ineficiente ciclo dos engenhos e latifúndios na região.

Essa comunidade de desvalidos pela seca e pela miséria chegou ao seu ápice econômico social quando, a partir do miserável sertão baiano, exportou seu produto, o couro, para as emergentes manufaturas dos Estados Unidos do final do século dezenove. A República dos Canudos era a coisa pública, ou melhor era a coisa do povo na prática, sem os famigerados intermediários de plantão. Era o povo determinando sua vida, suas leis, o fruto do seu trabalho, por fim, o seu destino.

Mas esse rompante de progresso ao sul do Equador começou a incomodar as elites e a sanha dessa pelo poder não tardou a acontecer. Alguns anos após a proclamação da República de 1889, em 1896, Conselheiro e seu povo compraram da vizinha Juazeiro uma partida de madeira com o intuito de construírem uma nova igreja para o arraial, porém, essa partida nunca chegou ao seu destino final.

Isso ensejou rumores de que os homens de Canudos iriam à Juazeiro buscar o que era seu de direito e uma convulsão social se instaurou. Esses, diferentemente do que esperavam os poderosos de Juazeiro preferiram a temperança e não o ataque. Viram ao longe, sob o véu da caatinga, a força policial marchar em direção a Canudos e do alto da tocaia inviabilizaram esse primeiro ato hostil. Dava-se assim o estopim da Guerra de Canudos.

Posteriormente, de assalto, as forças militares em maior número recobrariam efetivo para atacar Canudos. A elite, a Igreja, a recém fundada República entravam no combate com a finalidade de esmagar Canudos e recuperar o “equilíbrio” político econômico e social da região. Mas, uma vez mais, a tocaia cabocla conselheirista rechaçava a tropa e o Major Febrônio Pinto. A República reconhecia sua derrota no sertão.

Seguiu-se então, uma nova tentativa, a esse momento, as forças federais sob o comando do temido coronel Moreira César, o corta cabeça seguia para Canudos. Esse tão temido militar, a partir da sua soberba, investiu todos seus comandados de baionetas pelos becos de Canudos, mas ali corpo a corpo, casa a casa, os homens e mulheres de Conselheiro dizimaram, mais uma vez, o Exército nacional. Moreira Cesar era um dos que morreria na terceira volta de Canudos.

O Sudeste e sua nova república esbravejavam contra os incivilizados de Canudos. Conselheiro era pichado desde monarquista a fantoche de outras potências estrangeiras nas manchetes dos jornais. Diante desse quadro de críticas, em abril de 1897, emerge como solução para o conflito, a figura do Ministro da Guerra, o Marechal Bittencourt, no teatro de operações.

Já no segundo semestre do mesmo ano, instalado desde o Monte Santo, o Marechal comanda quatro mil homens para o derradeiro cerco final de Canudos. Em setembro, Conselheiro vem a óbito de disenteria e uma bandeira branca é erguida desde o epicentro do arraial. Após a promessa pela salvaguarda das vidas por parte do Estado, os soldados enfim marcham sobre Canudos. E no seu primeiro destrato, a nova República de coturnos, facas e baionetas degola um a um todo o povo de Canudos. Seriam mais de vinte mil vidas ceifadas no famoso episódio das gravatas vermelhas.

Euclides da Cunha, jornalista avançado pelo Jornal O Estado de São Paulo para cobertura da quarta última expedição, denunciaria, anos depois, por meio do livro Os Sertões, esse extermínio para o Brasil e para o mundo. Dessa obra antológica da literatura nacional pode-se extrair o que foi Canudos para os brasileiros de então. Mas, também, é a partir dela que se pode projetar o que teria sido a República de Canudos, a única estrutura de poder de nossa história que foi capaz de entregar para o povo o seu destino, seus sonhos e o poder de fato.


Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

 

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
× Precisa de ajuda?