Nanquim, a cidade chinesa pintada de luz e sombras

Novembro 7, 2019
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Novembro 7, 2019 Guilherme Romano

Desde o extremo oriente, Nanquim desponta nos dias de hoje como uma das principais cidades da China contemporânea. No seu horizonte, -se prédios futuristas e provocadores arranha-céus; nas ruas e avenidas sente-se o ritmo extenuante do exacerbado crescimento chinês. No entanto, a cidade de apenas uma cor esconde por trás dessa inquietante modernidade, um passado milenar de achados, arte e tragédias.

Nanjing – em chinês, significa a capital do sul e encontra-se no oposto cardeal de Pequim – Beijing, que, como Nanquim, é outra capital: a do norte. Para alguns entusiastas, a Nanquim de hoje é o perfeito casamento entre o passado milenar da China e o seu futuro glorioso. Nasce, entre o velho e o novo, entre a tradição e a tendência, uma harmoniosa mescla de jardins, templos e pagodes combinados com o melhor da arquitetura e das práticas contemporâneas.

Seu passado, como o próprio nome denuncia, foi tingido e escrito de tinta escura. Obtusa para alguns, brilhante para outros, pelos pergaminhos e tecidos ganhou fama e o mundo através do vizinho Japão que o importava para fins comerciais e artísticos. Ainda mais longe, na antiguidade, chineses e egípcios descobriram, aperfeiçoaram e difundiram a beleza das diferentes tintas para o mundo. Nanquim foi um desses casos: mais uma primorosa descoberta chinesa para a humanidade. Suas primeiras versões se utilizavam de tinta preta natural liberada pelos moluscos para a sua preparação. Posteriormente, o carvão combinado com a água e a goma arábica deu seguimento à essa empreitada, para depois chegar à sua formula atual composta de negro fumo, sua versão sintética não tóxica.

A tinta do nanquim, nessa progressão aritmética, ganhou, primeiramente, espaço na pigmentação dos tecidos para depois tingir os caracteres da escrita, evoluindo até o inquietante mundo das artes,  no século IX.

A partir do início daquele século, a palavra que batizava a cidade também foi adotada para inaugurar um novo estilo de pintura, próprio e único, empreendido na China de entãoA pintura nanquim foi hegemônica na arte chinesa até o século XVII, fruto da combinação estética entre a água e a montanha, inovava a partir do poder do shan shui que traduzia sensações e emoções acerca dos ritmos da natureza em telas, sedas e porcelanas. Seu principal mestre foi Dong Yuan que viveu na cidade homônima por toda a sua vida.

Já no século XVIII, essa forma de peculiar de retratar a natureza em tons monocromáticos e esparsas paisagens conhecia sua decadência na China. Porém, ganhou novos contornos na Europa moderna, vinda a ser utilizada em larga escala para ilustrar a natureza das colônias do além-mar. Esse alento foi impulsionado pelo Império Português, especificamente na Amazônia, que a utilizava para realizar levantamentos cartográficos e científicos para fins de engenharia.

Essa herança artística sino-portuguesa fez com que nessa mesma Amazônia, em meados do século XX, o nanquim inaugurasse para as artes, uma nova escola: a do nanquim  amazônico. A técnica amazônica utiliza o bico de pena na sua gênese e resgata a arte tradicional indígena combinada com outros estilos como a modernista e a surrealista: são paisagens, retratos, abstrações, entre outros. Seu epicentro continua sendo, até os dias de hoje, a cidade de Marabá, no sudeste do Pará.

Mas, como tudo na vida, Nanquim não é só arte e beleza, ela também carrega consigo cicatrizes, ranhuras, sombras e fantasmas. Seu lado mais obscuro e hostil abriga tragédias  como as guerras do ópio, as quais forçaram a China a abrir seus portos para a brutalidade do mercantilismo europeu. Porém, o maior deles se dá na segunda guerra sino-japonesa, durante a segunda grande guerra, quando a cidade enfrenta o seu pior pesadelo: o massacre de Nanquim.

O massacre, também conhecido como “o estupro de Nanquim”,  resultou na morte de quase 300 mil pessoas durante a tomada e saque da cidade por parte das tropas nipônicas. Todos, entre crianças, mulheres e homens foram de alguma forma aterrorizados por aquele evento catastrófico. Muitos perderam a vida, outros foram dilacerados pela tortura ou ainda pela cultura do estupro e do tráfico sexual. Fala-se em mais de vinte mil mulheres estupradas e outras tantas traficadas para as diferentes bases do exército japonês ao redor da Ásia. Mutilações, decapitações, terror, violações, entre outras atrocidades mancharam de sangue para sempre aquelas terras. Até hoje, mais de oitenta anos depois, a ferida de Nanquim influencia diretamente as relações diplomáticas asiáticas, especialmente, entre Japão e China.

Nanquim não é uma palavra ou uma cidade de grandes atributos. Às vezes é arte, pode ser também guerra, às vezes é luz que emana também suas sombras e às vezes é vida que culmina invariavelmente em morte. Tão desumana e, ao mesmo tempo, tão humana  como nós. Das cicatrizes, ela recobra forças, da terra arrasada ergue seus pagodes e jardins. Já foi também Mao, tigre e, hoje, diferentemente daqueles tempos, é a realidade das nossas esperanças entre seus belos traços e as suas ranhuras sem fim.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

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