A romantização e a reinvenção da lição de casa

Novembro 7, 2019
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Novembro 7, 2019 Raquel Del Monde

Na semana passada apresentamos uma análise crítica da prática pedagógica da lição de casa: falamos da falta de evidências quanto aos seus benefícios e de questões socioculturais e institucionais relacionadas a ela.

Submeter os argumentos que sustentam essa prática (ou qualquer outra) ao escrutínio da ciência é do interesse de todos – educadores, gestores e sociedade em geral. Ainda assim, tratando-se de um hábito enraizado na cultura do sistema escolar, isso pode não ser o bastante: desfaz-se o mito, mas permanece a romantização. Uso aqui o termo romantização no sentido de idealização, da mesma maneira que falamos em romantização da maternidade: imaginamos um cenário que retrata nossos desejos e aspirações, mas muitas vezes ele está distante da realidade.

Vamos conversar um pouco sobre as expectativas que alimentamos e como elas podem ser ou não validadas na vida real

Inicialmente, reconhecemos uma expectativa acerca do papel pedagógico da lição de casa: ela otimizaria a aprendizagem do aluno. Na verdade, a escola é o ambiente que estrutura o conhecimento formal e sistematiza a aquisição de habilidades para o aprendizado. Os educadores são os profissionais preparados para mediar a aprendizagem: cabe a eles selecionar o material apropriado para cada etapa, apresentá-lo de forma correta e avaliar o progresso individual dos alunos, realizando os ajustes necessários. Ao mandar uma atividade para ser realizada fora do recinto escolar, sem mediação de alguém preparado, é imprescindível que haja clareza quanto ao objetivo daquela ação. É este, de fato, o ponto crucial. O professor precisa saber o que pretende alcançar com determinada tarefa (qual o seu propósito: aperfeiçoar psicomotricidade, competências de linguagem/ raciocínio lógico/ organização, metacognição etc), e porque seria vantajoso realizá-la em casa. Se na própria sala de aula é necessário que as atividades sejam compatíveis com as habilidades dos alunos, espera-se que esse seja um cuidado redobrado na lição enviada para casa. Porém, o que acontece na vida real é que todos os alunos da classe levam a mesma lição, mesmo que suas habilidades sejam muito diferentes. Já vimos no texto anterior que isso é pedagogicamente ineficaz. Mas aí entra uma aposta temerária: a expectativa – nem sempre consciente – de que a família se responsabilize pela aprendizagem em casa. A romantização do envolvimento familiar.

Não há espaço para dúvidas: quando as crianças são expostas a um ambiente estimulante e culturalmente rico, seu aprendizado é potencializado. Muitas pesquisas mostram a influência positiva de pais com nível cultural mais elevado sobre o desempenho escolar dos filhos. Uma casa onde a leitura de livros, revistas e jornais faz parte da rotina, onde os pais leem histórias para os filhos e conversam sobre assuntos variados, onde há disponibilidade de atividades interessantes, é certamente um espaço que favorece a aquisição de habilidades importantes para a aprendizagem. Crianças aprendem o tempo todo: quando brincam, quando acompanham os adultos ao mercado, quando vão ao cinema, ao teatro, ao zoológico etc. Pais com maior escolaridade, interessados e disponíveis, geralmente possuem também uma maior percepção das dificuldades que o filho possa apresentar e maior capacidade de ajudar. Porém, a escola, enquanto instituição, não pode contar com isso. Pode promover palestras e rodas de conversa para conscientizar os pais a esse respeito, mas não pode contar com isso, porque seria terrivelmente injusto. Não está ao alcance da criança, do nosso aluno, determinar seu ambiente familiar. De um lado, principalmente em escolas particulares renomadas, vemos adultos assumindo completamente as lições de casa dos filhos (algumas vezes a ponto de se envolver em disputas pela melhor maquete, pelo melhor trabalho de ciências etc). Do outro extremo, famílias sem condições de ajudar a criança: pais com baixa escolaridade, jornadas de trabalho extensas, graves problemas de saúde (física ou mental), situações de vida vulneráveis. Então, não. A criança não pode pagar por mais essa desigualdade.

É importante ressaltar que nossa coluna semanal se propõe a falar de suportes educacionais na perspectiva da educação para todos. Não é difícil imaginar que as consequências de tarefas inadequadas sejam maiores para os alunos neurodiversos (com TDAH, autismo, dislexia, discalculia e outras condições). As dificuldades linguísticas, sensoriais, cognitivas e motoras existem dentro e fora da sala de aula e isso precisa ser considerado em todas as práticas escolares aplicadas a eles. Não devemos esquecer também que esses alunos geralmente frequentam terapias diversas no contra-turno, resultando num desgaste diário multiplicado.

Não posso julgar ninguém pela tendência à romantização. Eu vivo idealizando a escola ideal: turnos e horários apropriados a cada faixa etária, currículos flexíveis, capacitação universal, apoio aos educadores. Sonho com a transformação da escola num espaço que contemple atividades esportivas e culturais: teatro, dança, coral, oficinas diversas, que reconheça talentos invisíveis e atue nos problemas da comunidade. Mas tento manter os pés no chão. Talvez por isso, me concentro no que é possível mudar e isso inclui a lição de casa. Não vejo justificativas para que esta prática continue a ser usada para tentar compensar a falta de tempo, planejamento ou competência do sistema escolar.

Aos educadores que vislumbram algum benefício com esta prática, deixo o desafio de reinventá-la.

Reflitam sobre as evidências. Criem novas evidências.

Tenham sempre em mente a finalidade da tarefa e flexibilizem o modo de executá-la. Há sempre várias maneiras de se atingir um objetivo. Ofereçam várias opções aos seus alunos.

Considerem a adequação do volume de tarefa e do prazo de entrega.

Ajustem o grau de dificuldade da atividade e avaliem a capacidade do aluno de executá-la sozinho, sem que dependa da ajuda de outra pessoa.

Sempre que possível, incluam temas de interesse do aluno na tarefa. Levem em conta suas opiniões. É impressionante o engajamento de um aluno motivado.

Finalmente, os suportes educacionais para alunos neurodiversos devem ser estendidos à lição de casa. Não sabe quais são esses suportes? É só ler os textos anteriores dessa coluna (e os próximos também!).

 

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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