O mito da lição de casa

Outubro 31, 2019
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Outubro 31, 2019 Raquel Del Monde

A lição de casa é uma prática pedagógica mais que consagrada nas nossas escolas. Faz parte do próprio conceito que temos da educação formal. Mas até que ponto ela traz benefícios reais para os alunos?

Acredito que o caminho para melhorar nosso sistema de ensino passa obrigatoriamente pela análise crítica do que é importante ou não para o aprendizado. Uma análise baseada em dados produzidos por estudos científicos, não em opiniões pessoais ou dogmas invioláveis. Questionar é preciso – sempre!

Há alguns anos, escrevi um texto analisando conclusões de estudos norte-americanos sobre o assunto. Por mais chocante que possa parecer, uma revisão de 120 estudos conduzida por Harris Cooper, da Duke University, não encontrou nenhuma evidência de benefício das tarefas sobre o aprendizado ao longo de todo o Ensino Fundamental.    

Um argumento usado para justificar as tarefas é que a realização dos exercícios em casa reforçaria o que a criança aprendeu em sala de aula. Algo como “a prática leva à perfeição”. Alfie Kohn, em seu livro “The Homework Myth”, explora a diferença entre a aquisição de habilidades que podem ser desenvolvidas e aperfeiçoadas com a repetição (como jogar tênis ou tocar um instrumento, por exemplo) e aquelas que dependem da apropriação de um significado, de compreensão. A repetição não conduz ao entendimento. Quando os alunos de uma mesma série levam dezenas de exercícios de matemática para fazer em casa, por exemplo, observa-se que aqueles que não entenderam a matéria, não vão evoluir apenas por copiar mecanicamente o exemplo fornecido em classe e aqueles que já dominaram o conteúdo não precisam disso. Portanto, dar a mesma tarefa para todos os alunos, é pedagogicamente ineficaz. A realização dos exercícios em sala de aula, com discussão de dúvidas e feedback imediato do professor produz resultados muito melhores.

Há quem defenda que a lição de casa traz outros benefícios, além do acadêmico: desenvolver a responsabilidade do aluno e envolver os pais na aprendizagem. A socióloga Heather Shumaker analisou esses pontos. Crianças na Educação Infantil e nos primeiros anos do Fundamental não têm maturidade para lidar sozinhos com suas tarefas: geralmente precisam da ajuda de um adulto para organizar o material e guiá-las na realização das atividades. Os pais, na maior parte dos casos, se veem às voltas com a obrigação de checar lições e ajudar no estudo ao chegar em casa após um longo dia de trabalho. O tempo que deveria ser destinado à convivência familiar é tomado por cobranças – e não raramente por batalhas, chantagens e lágrimas. Também há um equívoco na noção de que responsabilidade só é ensinada com exercícios de escola e estudo.

Responsabilidade pode ser adquirida dividindo-se as pequenas tarefas domésticas: por a mesa para o jantar, ajudar com a louça, cuidar do animal de estimação, arrumar o quarto. Atividades que pertencem ao cenário da família, onde a troca de afeto e o cuidar um do outro também precisam ser exercitados. Harris Cooper, inclusive, encontrou um impacto negativo da lição de casa nas atitudes das crianças em relação à escola.  Elas querem tempo para relaxar, explorar outros interesses, fazer esportes ou brincar. Aliás, sabemos que sono e alimentação adequados, relações familiares harmoniosas, prática de esportes e brincar são vitais para o equilíbrio e o bem-estar das crianças, com repercussões positivas na memória, atenção e comportamento. Não surpreendentemente, o melhor preditor de competência em qualquer área é a motivação da pessoa (o que vai ao encontro de seus desejos, interesses e objetivos) e não aquilo que faz por pura obrigação.

Pois bem. Temos que considerar que esses dados foram obtidos numa realidade bem diferente da nossa. O tempo que os alunos passam nas escolas nos Estados Unidos é maior e eles tem mais oportunidades de desenvolver competências em áreas variadas do conhecimento. No Brasil, pela necessidade de otimizar o uso dos espaços das escolas e o trabalho dos funcionários, geralmente temos dois períodos de aula, manhã e tarde. Professores aqui enfrentam dificuldades para cumprir metas estabelecidas pelo sistema adotado pela escola (determinado conteúdo em determinado tempo), tem sobrecarga de trabalho e sofrem com a ausência de apoio institucional. A maioria dos nossos alunos não tem acesso a muitas opções de lazer, atividades esportivas ou culturais e suas famílias também vivenciam com mais frequência situações adversas: não só a jornada de trabalho mais longa como também todo o cenário de problemas sócio-econômicos do país. Às vezes, tenho a sensação que a lição de casa tenta cobrir muitas falhas do nosso sistema educacional: exercícios que deveriam ser feitos em classe, dúvidas que deveriam ser esclarecidas pelo professor, trabalhos em grupo com objetivos questionáveis, pesquisas e confecção de materiais nem sempre adequadas às habilidades dos alunos etc. A questão é bastante séria: não podemos fingir que não sabemos que muitas famílias com melhor situação financeira pagam alguém para acompanhar as tarefas de casa dos filhos – além de pagar a escola. Este é um fato bem sintomático.

Vamos dividir o assunto em duas partes, pra não alongar demais. Spoiler: até agora eu estava falando dos neurotípicos!

Até a próxima semana!

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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