De Coringas e Dalis

22/10/2019
Posted in Colunistas
22/10/2019 Guilherme Romano

Joaquin Phoenix nos arrebata com uma atuação primorosa. O roteiro reverbera por si só, a fotografia e a trilha sonora são impecáveis. Já Berlim, Palermo, Nairobi, Tokio somados ao Professor – nossos Dalis, fazem da Casa de Papel uma das séries mais irrepreensíveis já produzidas. Como pano de fundo, as duas produções têm algo bastante comum: a derrocada do establishment por vias vingativas e redentoras.

Do lado de cá da tela, na realidade nua e crua da vida, meses atrás, assistíamos aos coletes amarelos incendiarem a Paris de Macron. Semanas depois eram os chineses que lutavam por uma Hong Kong livre da ditadura. Há alguns dias, Quito perdia seu status de capital devido a uma forte onda de protestos indígenas contra o corte dos subsídios dos combustíveis. Hoje, catalães reinvidicam perante uma inexplicável monarquia em pleno vinte e um sua independência e os chilenos transformam Santiago e seus arredores no calvário do liberalismo.  Até Beirute e o distante Líbano sacodem contra os aumentos das tarifas. São ensaios de uma dita revolução a porvir.

Nunca se sabe ao certo se a vida imita a arte ou é a arte que imita a vida. Mas há algo no ar. Máscaras, coletes e caras pintadas despontam por aí. Buscam uma única coisa ao final: a real efetivação do contrato social, a inclusão da faceta mais excluída, da massa da qual fazem parte, na festa do capital. Estão fartos de arcar com os dízimos econômicos e sociais da sociedade de consumo. Nunca foram apenas os vinte centavos de ontem ou os trinta pesos de hoje.

Suas atuações mundo afora diferem das revoluções modernas bem sucedidas do passado. Desta vez, não cedem um milímetro sequer à tentação de abarcar outros grupos; excluem dos processos reinvidicatórios principalmente a burguesia, pois veem nela seu verdadeiro inimigo, os patrões. Marginais, minoriais, oprimidos, desempregados, esfomeados; um proletariado mascarado são os que dão as cartas, não aceitam as hierarquias, estão fartos das ordens, dos monopólios privados, das tarifas, dos salários baixos, das gorjetas e dos impostos. Anarquicamente relembram, de certo modo, os primórdios de outras revoluções, como as mexicanas, a haitiana, a russa ou até mesmo o terror de Robiespierre.

Essas rupturas, dia a dia, hão de se aprofundar cada vez mais, enquanto o aparato estatal ignorar suas demandas e governar apenas em prol de si, de sua corrupção e de seus parceiros comerciais. Diante dessa relação incestuosa e carnal, as massas, cada dia maiores, mais famintas e mais raivosas, não ficarão mais de braços cruzados. Seus Dalis, seus Coringas, cobrarão com juros a liberdade, a igualdade e a fraternidade prometidas no passado. Emergirão na busca da vingança em redenção.

No entanto, o sistema tem das suas e se articula por igual. Quem pode esquecer as jornadas juninas do Brasil em 2013?  Elas também tinham ímpeto na exigencia de melhores condições. Mas o sistema ali gestou suas sucuris, veio o impedimento e quase quatro anos mais tarde daqueles episódios, personagens de falsas estrelas aportavam como salvadores da pátria no Planalto Central.

Para evitar os erros do passado, esse mesmo sistema opera hoje de forma distinta, expele veneno e uma ruidosa cortina de fumaça que desfoca a realidade para a pós verdade. Podam as jaboticabeiras, constrõem embaixadas de hambúrguers e os assuntos de menor importância ganham o noticiário do horário nobre, enquanto plantam na surdina os laranjais. Como bons pantaneiros, sacrificam o boi magro pelas piranhas, enquanto o rebanho nada ileso.

É nesse momento tão delicado pelo qual a deixamos que nos sequestrassem a narrativa, é que a vida deve imitar a arte ou, ao menos, que essa nos conecte à realidade. Só a partir daí será feita a oposição sistemática ao sistema que tanto nos trai e pouco nos oferta.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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