Em verso e prosa: produção de texto em alunos com TEA

18/10/2019
Posted in Colunistas
18/10/2019 Raquel Del Monde

Não importa a matéria ou a série. Ser capaz de elaborar uma resposta, expor argumentos, relatar uma vivência ou apenas expressar uma opinião é uma habilidade necessária no ambiente escolar.

Hoje nosso assunto é produção de texto!

Já falamos de escrita anteriormente nesta coluna, focando nos aspectos grafo-motores, ou seja, do registro em si (https://www.coreduc.org/2019/08/29/escrevendo-a-propria-historia/). Porém, há muitas outras competências envolvidas no processo de usar a escrita para traduzir ideias e sentimentos, de forma clara. Produzir um texto é uma atividade criativa, que exige habilidades cognitivas e linguísticas.

Dentre os alunos que podem apresentar dificuldades na produção de texto, temos aqueles com distúrbios de linguagem, TDAH, autismo e deficiência intelectual. A melhor maneira de ajudá-los – dentro do perfil de cada um – é destrinchar esse processo. É sempre mais fácil compreender os elementos envolvidos em determinada atividade quando os isolamos dos restantes e especificamos o seu papel. Aí sim podemos determinar os pontos a serem trabalhados.

Vamos dividir os tópicos principais nas duas grandes áreas de competências já mencionadas (habilidades linguísticas e habilidades cognitivas).

1 – Habilidades linguísticas (domínio das particularidades semânticas, morfológicas-gramaticais e pragmáticas da linguagem)

Semântica: refere-se ao significado das palavras. Só podemos usar aquilo que conhecemos para nos expressar. Entender o que as palavras e frases representam é um pré-requisito básico para criar um texto. Podemos utilizar diversas atividades para ampliar o vocabulário dos alunos e para consolidar sua assimilação dos significados de palavras e frases (jogos de sinônimos e antônimos, substituição da palavra por imagens, usos em diversos contextos), começando das que expressam conceitos mais concretos para os mais abstratos. É importante que o aluno se sinta confortável com o uso das palavras que escolhe.

Gramática: refere-se ao conjunto de regras que regem o uso de uma língua. A combinação e a disposição das palavras em frases e orações seguem um padrão próprio. Algumas crianças com distúrbios de linguagem ou DI podem se expressar de forma rudimentar – sem elementos de ligação, por exemplo. É preciso priorizar a aquisição dos componentes fundamentais para a estrutura da frase e, aos poucos, ir estabelecendo novas metas (é importante ressaltar que devem ser trabalhadas uma de cada vez, passando para a seguinte apenas após o domínio da anterior). Trabalhar com cores diferentes para destacar os diversos elementos linguísticos é uma estratégia interessante que oferece um modelo visual para a criança. Considerar sempre a funcionalidade de determinado conhecimento para determinada criança. À medida que ela progride, devemos ensiná-la onde e como buscar a informação que precisa

Pragmática: refere-se ao uso comunicativo da linguagem, num contexto de interação entre duas ou mais pessoas. Envolve a percepção da expectativa dos interlocutores e a adequação do conteúdo da mensagem a uma determinada situação. Muitas pessoas podem apresentar dificuldade em contextualizar as informações da sua produção de texto. Para isso, precisam de ajuda para apreender o tema em questão e para selecionar os tópicos relevantes a ele. Algumas vezes, é necessário “mastigar” o contexto até que seja assimilado.

 

2 – Habilidades cognitivas

Ideação: lembrando que a produção de texto é um ato de criação, é necessário partir de um ponto (uma ideia, um acontecimento, uma sensação, um desejo). Portanto, descrever vivências e contar histórias estão entre os melhores exercícios para fazermos com as crianças. Ao propor temas para os textos, devemos usar inicialmente as próprias vivências dos alunos. A familiaridade e o interesse da criança por algum assunto são os maiores motivadores. Crianças naturalmente gostam de histórias. Se não arruinarmos isso com a intransigência dos temas rígidos, podemos ter muitas surpresas boas.

Organização da informação: alguns alunos precisam partir de modelos estruturais elementares ao fazer um texto: muitas vezes um formato simples de início – meio – fim precisa ser treinado com afinco. Jogos de sequências podem ser úteis. Novamente, ressaltamos que algumas crianças se beneficiam de um modelo ou mapa mental. A utilização da imagem de uma árvore é um bom exemplo: o tronco mantém o tema principal e os galhos contém as diferentes ideias relacionadas a ele. Podemos auxiliar a criança a coletar e categorizar as informações, para depois transformá-las em parágrafos.

Revisão: realizar a análise do que foi escrito junto com o aluno para verificar a clareza e a coerência do texto. Praticar a busca de soluções e alternativas para as dificuldades encontradas.

Adequar as exigências de produção de texto (considerando tema, tamanho e complexidade) e guiar o aluno nos pontos em que apresenta dificuldades são as chaves para construir a competência da escrita.

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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