A professora Eugênia: sobre educar para além do que nos limita e incluir

18/10/2019 Irene Reis dos Santos

Vou te contar uma historinha…

Eu acabara de sair da casa da minha mãe, aos doze anos de idade. Esta ruptura me distanciou dos meus irmãos, do cenário da vida interiorana e me colocou em um apartamento, em uma avenida de São Paulo. Nada mais distante da minha realidade de até então.

A dor da ruptura e dos novos desafios, as memórias afetivas, tudo me transportava a qualquer mundo distante do presente. Mas a leitura e a escrita sempre me acolhiam, em refúgio, e isso não passou despercebido pela professora de matemática, Maria Eugênia.

Ela foi a minha segunda professora de matemática em São Paulo, mas não quero falar sobre a primeira porque ela era tão indiferente e sem emoção que não me lembro de seu nome (tenho problema com nomes. É preciso que me afetem para que eu os guarde). Só me lembro de seus traços orientais e de que em suas aulas eu preferia ir para a biblioteca estudar o Atlas do Cérebro e desenhá-lo em papel vegetal. Aquela coisa toda de mais com maismenos com menos que vira mais… uf… difícil entender que se eu devo e devo de repente fico com mais… A matemática me levou, aos doze anos, a querer entender por que eu não entendia, como funcionava o cérebro, ainda que fosse cabulando aula, acobertada por uma bibliotecária que fingia que não me via entrar fora de hora, depois de me dar um sorriso de cumplicidade.

Mas quero falar da Maria Eugênia. Vendo que eu escrevia, percebendo em mim algum potencial alheio aos números, um dia, ela foi até a minha carteira. Eu não me assustei porque sabia que ela não seria capaz de ser grosseira e não foi. Quase ficou de joelho e me disse, baixinho: que tal escrever sobre o que estamos aprendendo? Eu nem sabia que conteúdo era aquele e, percebendo meu distanciamento de tudo, me disse: estamos passando metro para centímetro, mas ainda não falamos sobre a história do surgimento do metro como medida padrão e é uma história bem interessante, que tem a ver com reis. Que acha de criar algo sobre isso?

Eu não precisava de outro verbo além do “criar”! Fui à biblioteca (nem sempre tivemos celular e eu sonhava morar numa biblioteca) e comecei a devorar os livros de matemática que tratavam sobre o assunto. Escrevi uma peça de teatro, mobilizei amigos e as lojas do entorno para que tivéssemos a ajuda para construir nosso cenário e figurino. A minha vó, que me apoiava nas aventuras, acompanhou tudo de perto e a peça teatral sobre a História do Metro foi vista pela escola toda e foi parar no SESC. Justo eu, sempre de letras, produzi algo para matemática, graças à confiança de uma professora que me viu para além do que me limitava!

Será que temos feito isso como professores? Deveríamos, porque esta é a verdadeira inclusão e isso deixa marcas positivas e afetivas!

 

Irene Reis dos Santos – É bacharel e licenciada em letras – Português e Espanhol pela FFLCH – USP, especialista em tradução, pesquisando, no mestrado em Ciências da Educação, sobre participação de estudantes na comunidade por meios de Grêmios. Atualmente, leciona espanhol no Instituto Cervantes, contribui com editoras e é fundadora e presidente da CORE – Comunidade Reinventando a Educação. Irene acredita que as vivências interculturais e a aprendizagem baseada em projetos de vida em comunidade são a chave para o complexo desenvolvimento da sociedade planetária.

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