Na inclusão, não trabalhamos com pronta entrega. Saia de “sua” zona de conforto

11/10/2019
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11/10/2019 Raquel Del Monde

 Quando a gente trabalha com inclusão escolar, não é raro recebermos pedidos do tipo “Você me indica um site onde posso achar adaptações pedagógicas?” ou “Você pode me passar as adaptações pedagógicas usadas com autistas?”.

Nesse momento, a gente respira fundo e faz uma pausa dolorida. Uma pergunta dessas revela que a pessoa não faz a menor ideia do que está falando. O objetivo de qualquer adaptação pedagógica é justamente individualizar o modo de apresentar determinado conteúdo ou de executar determinada tarefa para atender a particularidades de um aluno. Então, não. Não temos adaptações para pronta entrega.

Espero que aqueles que acompanham a coluna já tenham isso bem claro. Não existem adaptações “diagnóstico-específicas”. Temos que conhecer as características e necessidades de cada aluno para então definir os suportes mais adequados para ele.

Hoje vamos falar de adaptações referentes ao conteúdo que será apresentado ao aluno (não à forma em que será apresentado, como já abordamos em colunas anteriores, mas ao teor da matéria em si).

O psicólogo americano Bill Nason (do Autism Discussion Page – um dos meus gurus) traz uma reflexão interessante a este respeito: ele fala da importância fundamental de conhecermos e respeitarmos a zona de conforto dos alunos.

Costumamos falar de zonas de conforto de forma pejorativa: “Fulano não quer sair da zona de conforto” como sinônimo de falta de esforço, falta de vontade, comodismo, preguiça. Mas Bill Nason enxerga a questão a partir de outra perspectiva: o entendimento da expressão “zona de conforto” como o espaço onde nosso aluno se sente seguro, onde é cercado de coisas familiares e que fazem sentido para ele. O espaço em que se sente competente.

Quanto mais vulnerável o aluno (por dificuldades nas áreas que já falamos anteriormente: comunicação, organização perceptual, motricidade, cognição, habilidades específicas), mais resistente ele será para sair de sua zona de conforto pois maior será sua percepção de ameaça. O medo de falhar, do estigma do fracasso, de ter suas fraquezas expostas está frequentemente por trás da recusa em realizar algumas atividades. É um sentimento bastante compreensível, na verdade – bem humano.

Engraçado que todos nós concordamos que não parece lógico ensinar equações matemáticas de segundo grau a uma pessoa que ainda não dominou as operações básicas, certo? Ou cobrar a interpretação de um poema de Camões para quem está lutando para compreender a estrutura dos parágrafos. Mas, por incrível que pareça, é exatamente isso que vemos acontecer dentro do engessamento do nosso sistema de ensino, daquela ideia insana que todos os alunos de uma série estão assimilando informações no mesmo ritmo. Todos os dias temos relatos de alunos com os mais variados tipos de dificuldades atordoados com exigências para dar conta do mesmo conteúdo que os demais. Essa postura não faz com que progridam, ao contrário. Representa um entrave para seu desenvolvimento e aumenta sua defasagem em relação aos demais. Essa semana ouvi uma educadora afirmar que é mais fácil para o aluno dizer que não sabe fazer algo do que tentar. Não é. Crianças são seres curiosos por natureza, gostam de novidades, adoram “se mostrar” quando conseguem fazer algo novo. Não é fácil pra ninguém admitir a própria incapacidade.

Definir a zona de conforto de um aluno no aspecto pedagógico é equivalente ao que fazemos na avaliação de suas particularidades neurológicas. Significa determinar seu domínio da matéria, seu nível de conhecimento, seus pontos fortes e seus pontos fracos. De posse desta informação, podemos pensar no próximo desafio e conduzí-lo com segurança para além das fronteiras de sua zona de conforto, passo a passo. É preciso estabelecer pequenas metas, a princípio, oferecer o suporte que for necessário, e, gradativamente, à medida que ele progride, ir ampliando a demanda.

Trata-se de encontrar o equilíbrio entre exposição (a novas informações) e suporte (assistência necessária). O desafio deve ser adequado ao repertório do aluno: nem maior (que requer conhecimento ou habilidade ainda não adquirida) e nem menor (aquele que subestima a capacidade do aluno, do tipo que oferece apenas desenhos para colorir ao aluno com alguma deficiência). O mesmo deve ser observado em relação ao suporte: dar assistência não significa fazer pelo aluno e sim disponibilizar o conteúdo da forma que for mais acessível a ele, oferecer modelos e monitorar seu progresso. As duas coisas precisam estar na medida certa: A “ensinagem” bem sucedida passa por essa fórmula.

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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