Pó de giz

Outubro 8, 2019
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Outubro 8, 2019 Guilherme Romano

Antes das lousas digitais e dos tablets, era o giz que reinava nas salas de aula. Obedecia à apenas um mestre e seu norte era o vazio do quadro negro. Desde então, evoluímos a largos passos em direção ao melhor da tecnologia, mas, para mim, fomos deixando ao longo do caminho o que foi e sempre será o fator preponderante, nossos professores.

Daquele passado longínquo do qual  nem as ruínas de giz sobraram, recordo com carinho dos meus mestres como também das suas aulas magnas. Aqueles que conduziam, como poucos, nossa imaginação a lugares intangíveis que iam desde as selvas do Camboja até as sombras profundas do nosso sertão. 

Nessas lúdicas viagens, conhecíamos a fundo a biografia de Michelangelo e a sua Monalisa , de um banquinho só nosso, no Louvre. Em outras tantas, eles nos revelavam os segredos do aparelho digestivo através de um simples pedaço de pão que ,envolto por um barbante, se fazia de fio condutor pelos mistérios do nosso corpo.

E tinha mais:  a revelação de Arquimedes em seu banho com vista para o Mar Egeu, as diferentes guerras, descobertas e a leveza da poesia. Às vezes  também faziam com que levantássemos velas com os corajosos desbravadores e, com eles, fazíamos escalas na distante Tasmania, nas Ilhas do Havaí e nos confins da gelada Antártida. Chegávamos a domar dragões em Comodo e, na Índia, caminhávamos, lado a lado, com Gandhi na sua justa marcha de sal.

Esses professores, aos que aqui já deixo expresso o meu muito obrigado, apresentaram-me os desafios inerentes ao aprender, ao trabalhar e ao contínuo processo de me aperfeiçoar. Sem eles, com certeza, nada ou pouquíssima coisa seria o produto final do meu destino. Hoje sei que toda essa bagagem foi fruto de muito trabalho, de muito ensaio e, claro, de muito sacrifício.

Sacrifício que nos dias de hoje ganha capítulos e contornos cada vez mais dramáticos. São cortes de todas as ordens que vão do contracheque, passam pelos direitos trabalhistas e, por fim, chegam até a contingência do mais simples possível, o material didático de trabalho.

Esse desmonte sequencial se mostra também cada dia mais proposital, pois, mais além, restringe os horizontes da educação através da extinção das bolsas de estudo, dos fundos de pesquisas e dos intercâmbios educacionaisNo fundo, o que eles querem é que a iniciativa privada, majoritariamente dominada por eles próprios, conduzam os interesses da educação nacional em nome do ganho de capital.

Hoje, além dos professores e dos profissionais de educação, quem também sofre diretamente com essa miopia institucional são os milhões de alunos espalhados pelo Brasil. A miopia de hoje é também a sangria do presente, a derrocada do produto interno bruto. Uma sociedade inculta é incapaz de gerar riquezas com aderência econômica e se baseia única e exclusivamente na promoção do capital especulativo. A indústria, seus produtos, os serviços e a tecnologia 100% nacionais, minguam ou são quase inexistentes por aqui enquanto os índices de curtíssimo prazo prosperam sem o devido lastro futuro. O que se tem por aqui,  é um enorme mercado consumidor cada dia mais refém do protagonismo corporativo externo.

a partir dessa depressão financeiro-econômica, ou melhor, de quando o bolso realmente apertar no auge dessa atual crise, é que, talvez, tenhamos o necessário milagre, pelo qual legisladores entre outros atores da condução nacional perceberão que a educação não é apenas um mero gasto governamental obrigatório e sim o único investimento possível no melhor do Brasi, que é o seu povo e seu futuro. 

E só assim, lá na frente, talvez esses darão o crédito necessário à educação e, quem sabe ainda,  promoverão a justa equidade entre eles próprios e os nossos professores. E quando esse momento chegar, saudaremos de lá também com nostalgia, àquelas manhãs e tardes de sacrifício envoltas pelo poder do pó de giz.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e, nas horas vagas, administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

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