Presta Atenção! – Parte 2

Outubro 3, 2019
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Outubro 3, 2019 Raquel Del Monde

No texto da semana passada, falamos um pouco de outras funções neurológicas e cognitivas que influenciam a atenção: nível de alerta, processamento sensorial, motivação/ afeto e funções executivas. Não leu? Corre lá e dá uma olhada. (https://www.coreduc.org/2019/09/26/presta-atencao-parte-1/)

É importante entender esses pontos para definir os suportes que vão funcionar melhor para cada aluno. Vou falar deles seguindo a ordem do primeiro texto, certo?

Vamos lá!

Problemas que interferem no nível de alerta nem sempre estão dentro do limite de atuação do professor em sala de aula. Alunos com distúrbios de sono, problemas orgânicos (como hipotireoidismo) ou que usam medicações que os deixam sonolentos precisam de avaliação médica. A estruturação de uma rotina diária saudável (com horários regulares para dormir) e o limite para uso de eletrônicos são da alçada familiar. Porém, mesmo nesses casos, o relato da escola é importante para informar a família sobre o que está acontecendo e quanto à necessidade de buscar ajuda. Outras ações bem-vindas neste sentido são conversas e palestras (para pais e também alunos) sobre a importância gigantesca do sono na aprendizagem e na consolidação de memórias (acreditem ou não, em adolescentes e jovens, a privação de sono prejudica mais o aprendizado que o uso de algumas drogas).  Por outro lado, não podemos deixar de mencionar que os horários do nosso sistema de ensino são definidos em função da necessidade de adequar o espaço físico para dois turnos de salas diferentes, desconsiderando o conhecimento atual que temos sobre as diferenças individuais dos relógios biológicos (dos quais já conhecemos inclusive a estrutura genética).

O neurocientista Fernando Louzada, coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Paraná é um dos especialistas que endossam este alerta. O ciclo sono-vigília muda conforme a idade e varia muito de um indivíduo a outro, do ponto de vista neurobiológico. O ideal seria aproveitar os horários mais favoráveis para cada faixa etária: geralmente mais cedo para crianças pequenas e um pouco mais tarde para adolescentes – a exemplo de diversos países em que o horário das aulas ocorre das 8:30 ou 9 horas até cerca de 15 horas. No momento, sem poder contar com horários mais favoráveis, nos restar lançar mão de recursos para tornar mais adequados os estímulos sensoriais do ambiente e paraelevar a motivação dos alunos.

As adequações dos estímulos sensoriais do ambiente podem ajudar muito aqueles alunos com alterações do processamento sensorial e alunos com TDAH, que distraem-se facilmente com qualquer coisa. No caso dos alunos hipersensíveis, trabalhamos para reduzir ou eliminar estímulos estressores (regular nível de iluminação, permitir uso de fones de ouvido abafadores de ruídos, oferecer opções de materiais – vide texto sobre TPS). Alternar atividades estruturadas com atividades mais livres (que permitam certa movimentação) é uma boa estratégia para todos os alunos. Não só dá um input sensorial que é necessário (especialmente para crianças mais novas) como ajuda manter um nível de alerta adequado. Alunos com hipossensibilidades e comportamento de busca podem se beneficiar de algumas acomodações (na internet podem ser encontrados exemplos de uso de pedais, elásticos na carteira, bolas sensoriais e outros matérias em sala de aula, que permitem que esses alunos – geralmente muito agitados – se regulem).

Em relação a estímulos distratores, o posicionamento na classe (afastando o aluno de portas, janelas ou outras fontes de estímulos e deixando-o mais próximo ao professor e à lousa) geralmente ajuda. Precisamos verificar se a sala de aula em si não apresenta uma sobrecarga de estímulos. Falamos tanto da importância da sinalização visual e uso de imagens, que algumas escolas poluem o ambiente com isso. A sinalização visual é, sim, extremamente importante – mas apresentando apenas o estímulo relevante num determinado momento e não tudo ao mesmo tempo.

Despertar a motivação e o afeto dos alunos é provavelmente a habilidade mais importante de um educador – aquela que o distingue de todos os outros, aquela que pode transformar vidas. Alguns nascem com esse dom, mas todos nós podemos lapidar essa habilidade. Antes de tudo, é preciso enxergar o aluno como um ser humano completo. O contato inicial com uma nova classe deveria sempre incluir um tempo para que alunos e professores se conhecessem um pouco e estabelecessem um relacionamento amigável e respeitoso. Isso se torna crucial no casos de alunos com necessidades educacionais diferenciadas (considero imperdoável a negligência de algumas escolas em compartilhar informações neste sentido).

Conectar conteúdo de uma disciplina ao universo do aluno é o segundo passo. Despertar sua curiosidade inserindo informações que mostrem a relevância do assunto. Podemos utilizar interesses pessoais para engajar os alunos no aprendizado. Isso exige flexibilidade na hora de propor atividades e trabalhos. Mudar a linguagem com que se trata um assunto, surpreender a classe com algo diferente do esperado e propor desafios são estratégias interessantes.

Também é importante trabalhar para evitar situações que possam constranger a humilhar algum aluno e criar metas alcançáveis para cada um, com retornos positivos e constantes a respeito de sua evolução, valorizando seu esforço. Elogios e sistemas de recompensas são bem-vindos (já vi professores que mobilizaram de forma positiva a classe toda para ganhar 5 minutos a mais de intervalo, por exemplo).

Alunos com problemas nas funções executivas (chamamos de disfunção executiva) se beneficiam muito de auxílio para que se organizem mentalmente. Precisam que as tarefas sejam fracionadas, ou seja, “quebradas” em partes menores e colocadas na sequência. Check lists, lembretes e agendamentos são importantes e devem ser sinalizados visualmente da forma que for mais favorável ao aluno (fotos, lista de imagens ou palavras, código de cores). Essa sinalização muitas vezes precisa ser individualizada (não basta aquela que serve para a classe como um todo). Podemos fazer listas que sejam coladas na capa de dentro do caderno ou da agenda, por exemplo. Modelos de organização de estojo, mochila e outros materiaissão úteis (fotos de como devem ser arrumados, impressas e coladas em locais estratégicos).

Alguns alunos podem precisar de intervenções breves do professor para retomar a atenção em alguma atividade. É importante que isso seja feito de forma a não expor o aluno (um toque breve no ombro, um código combinado entre eles). Alunos com disfunção executiva frequentemente apresentam dificuldades para monitorar o tempo de execução de suas atividades. Nestes casos, o uso de timers ou recursos como o “semáforo” (sinalizador com 3 lados – verde, amarelo e vermelho – construído com materiais simples como cartolina e EVA) podem ajudar. O “semáforo” fica no verde enquanto estamos com tempo “folgado” para fazer a atividade, passa para o amarelo para lembrar o aluno que precisa se preparar para finalizar e finalmente para o vermelho nos minutos finais. O “semáforo” também é útil para sinalizar à classe o momento em que o professor está dando uma explicação importante (fica no vermelho: ainda não é hora para perguntas!) e o momento de interagir (verde: podem tirar suas dúvidas). Casos mais graves de disfunção executiva podem precisar de mais apoio individualizado, redução do volume de trabalho e opção de realizar as atividades com mais tempo, em outro ambiente.

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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